Informação Condensada


Aviso: Mago: A Ascensão é um jogo. É um jogo sobre temas maduros e questões complexas. O material à seguir tem relação com este jogo. Como tal, ele não requer apenas imaginação, mas também bom senso. O bom senso diz que as palavras de um jogo imaginário não são reais. O bom senso diz que as pessoas não devem tentar realizar "feitiços mágicos" baseadas em uma criação totalmente derivada da imaginação de outra pessoa. O bom senso diz que você não deve tentar desvendar agentes do sobrenatural com inspiração em uma obra completamente fictícia. O bom senso diz que jogos são apenas para se divertir e quando eles acabam, é hora de colocá-los de lado.
Se você perceber que está distante do bom senso, desligue seu computador, afaste-se calmamente e procure ajuda profissional.
Para o restante de vocês, aproveitem as irrestritas possibilidades de sua imaginação.


Pele. Ossos. Carne. Odeio tudo o que meu corpo é.

Eu acordo pela manhã (ou tarde) e detesto não conseguir enxergar direito para odiar meu reflexo. Não importa o quanto eu olhe para tudo a minha volta, nunca parece haver o bastante para se fazer. Claro que agora é diferente. Agora eu vejo o símbolo do meu ódio deitado na mesa perante mim, gritando por piedade.

As coisas são diferentes com um computador. Você pode afogar os sentidos com tanta informação quanto puder conseguir. Muitos de nós, os Adeptos, fazemos isto para esvaziar a cabeça. Eu faço pelo motivo oposto. E a história por trás disso não é bonita.

Antes, quando éramos da Tecnocracia, dividíamos a Informação Condensada com a Iteração X. Não ficamos surpresos quando descobrimos ser esta uma das formas de tortura mais cruéis jamais concebidas. O que poderíamos fazer? A informação vazaria de qualquer forma. Ninguém consegue manter segredos muito tempo. Informação é uma força viva que a maioria das pessoas não compreende muito bem. Ela anseia por liberdade. Ela quer ser conhecida.

Eu passei pela tortura quando desertamos. Fiquei para trás para ter certeza de que cada informação, por menor que fosse, tivesse sido copiada dos bancos de memória da Tecnocracia e fui um dos azarados que acabaram sendo capturados. Nossa própria rotina foi usada contra nós para tentar nos reprogramar para sermos cidadãos perfeitos.

O cidadão perfeito deitado na mesa cirúrgica diante de mim é um membro da Tecnocracia. Ele tem a informação que eu quero. Ele tem a informação que eu vou conseguir.

A rotina que aperfeiçoamos age diretamente no cérebro do indivíduo. Essencialmente, ela regula o cérebro, tornando-o mais sensível aos estímulos. Todos os sentidos são aguçados. Quando a Tecnocracia encerrou o assunto comigo, parecia que minhas roupas eram de arame farpado e fibra de vidro embebidos em álcool. Meu café da manhã tinha gosto de ácido sulfúrico. Eu tinha a constante sensação de estar olhando diretamente para um reator nuclear e continuava sentindo o fedor dos meus captores por baixo do perfume barato que eles usavam para esconder os odores de seus corpos. Meu enjôo constante me fazia sentir que meu corpo estava virando do avesso. Eles fizeram isso comigo durante um ano inteiro. Eu quase morri.

Eles deviam ter me matado.

Eles me libertaram depois de um ano infernal e me puseram num asilo para loucos. Eles não tinham mais prazer em me torturar, eu me tornei insensível à tortura. Um ex-colega cavoucou os arquivos do hospital e me tirou de lá. Os Adeptos nunca abandonam os seus. Passei nove meses tentando me recuperar da tortura, enquanto descobria, pouco a pouco, a repulsa que sentia pelo meu próprio corpo.

A repulsa que sinto pelo meu corpo não é nada comparada à que sinto pelo pedaço de carne na mesa à minha frente. Ele não saberá nada da minha dor. Isto é algo que eu não vou repartir com eles. Ele está me fazendo as perguntas de sempre agora. Por que estou fazendo isto. O que ele fez contra mim. Quem sou eu. Eu não vou dar as respostas a ele. Sua ignorância adoçará seu tormento.

Quase um ano de tortura constante me transformou num vestígio do que eu já fui. O cérebro humano é um órgão estranho. É capaz de se ajustar e se adaptar a qualquer coisa. Quando se é bebê, não se enxerga muito bem e as coisas estão de ponta-cabeça, porque você acabou de sair de um pacote. Conforme se vai crescendo, depois de alguns dias ou meses, seu cérebro o "tapeia" para que você acredite que tudo está na posição certa. Basicamente, a mesma coisa aconteceu comigo. Meu cérebro me "tapeou" para me fazer pensar que a carga extrema era a única carga que existia. As coisas eram assim mesmo. Eu não consigo sentir nada agora. Meus nervos estão mortos e só consigo sentir extremos. Na primeira noite que passei em solidão eu cortava meus braços e torso com lâminas afiadas. Eu estava conectado com o mundo de novo e queria desespera-damente sentir alguma coisa, qualquer coisa. Quando percebi que as lâminas eram afiadas demais para causar dor, eu achei algumas facas enferrujadas. Quando os outros Adeptos voltaram para nosso esconderijo, eu estava à beira da morte.

O pedaço de carne na mesa ainda não está morto. Ele ainda vai demorar muito para morrer.

Os Adeptos se ajudam mutuamente, isso é bom. Eles me ajudaram. Novos aparelhos foram inventados para que eu pudesse sentir o mundo real normalmente outra vez. Eu vivo na Rede a maior parte do tempo; lá você pode aumentar o volume, aumentar a luz, aumentar as sensaçãos sem que ninguém mais saiba. Quando tenho que sair para o mundo real, preciso usar um traje especial que eu tenho.

Meus óculos escuros amplificam a luz para que eu consiga enxergar. Eu sou quase cego, pois não existe luz no mundo que alimente meus olhos famintos. Aparelhos de audição enfiam cento e oitenta decibéis em meus nervos auditivos triturados. Ainda não consigo cheirar ou sentir. Sabia que a pele é o maior órgão do corpo humano? Eu me queimo constantemente no fogão.

Se eu pudesse dispor de mais um ano poderia me tornar normal de novo. Eu enlouqueceria também. Fiz alguns estudos sobre privação de sentidos e não acho que eu vá agüentar a pressão de mais um ano sem sentir nada. Não depois daquele ano de tortura infernal.

Por isso, eu vivo na Realidade Virtual.

Eu sei exatamente quem fez isso comigo. Eu sei tudo sobre eles. Eu memorizei cada detalhe de seus rostos e cada detalhe de seus corpos. Eu os tenho seguido na Rede. Eles poderiam ter o mais sofisticado cirurgião plástico que a Tecnocracia sonharia em ter e ainda assim eu os encontraria. Conheço o cheiro deles. Este na mesa tem o cheiro deles por todo o corpo.

A Informação Condensada pode ser uma boa coisa nas mãos certas. Aprendizado acelerado e sentidos aguçados podem ser muito úteis. Quando cai em mãos erradas pode ser devastador. Eu nunca vou entender porque a Tecnocracia quer que eu faça isso com todas as pessoas. Eles estão fazendo isso com você e você nem percebe. É sutil mas o resultado é o mesmo. Eles enchem a sua cabeça com imagens e informações em que eles querem que você acredite. Você está sendo atacado por todos os lados televisão, professores, propaganda, dê o nome que quiser. Minha experiência me ensinou isto. Eu às vezes agradeço a Kibo pelo que fizeram a mim, porque agora eu sou imune à arma mais poderosa que eles têm.

Eu tenho alguns amigos entre os Filhos do Éter trabalhando no resto do meu traje. As partes estão chegando aos poucos, começando com os sentidos mais importantes. Chegará a hora em que meu exoesqueleto de policarbono ficará pronto e eu poderei ver, ouvir, cheirar e sentir o gosto do mundo por completo. Então eu estarei pronto.

Ele me diz tudo o que eu preciso saber. Onde está a próxima vítima. Qual é seu nome atual. Eu peguei o seu cérebro limpo. Eu até descobri algumas partes novas do Cronograma da Tecnocracia. Eles tiveram que revisá-lo todo de novo quando nós partimos. Apesar de não dar impor-tância para ele agora, eu o mantenho na memória para o caso de vir a ser de alguma utilidade no futuro.

Acho que a única coisa pior do que a que eles fizeram comigo é a privação de sentidos. Quando me deito para dormir eu percebo que não consigo descansar sem meu aparelho de audição. Sem ele minha mente se torna consciente de que não existe som ou nada que me alcance. Eu começo a entrar em pânico e não consigo me mexer. Você pode imaginar o que é não sentir nada? Isto é o que eu vou fazer com aqueles bastardos. Alguns anos boiando num tanque não é o bastante. Eu quero reinstalar o cérebro deles.

O pedaço de carne na mesa já não consegue ouvir a si mesmo, nem sentir suas cordas vocais rasgando de tanto gritar. Ele não vê nada. Ele não sente nada. Ele acha que está morto. Eu sei. Eu decido aguçar sua audição e dar-lhe uma última mensagem antes de apagar as luzes.

Eu estou fazendo isso com você, eu digo. Eu vou fazer isso com seus chefes quando os capturar. Sua gente me torturou e agora estou retribuindo na mesma medida. Eu os tenho seguido pela Rede. A maioria dos meus captores tem cargos mais importantes agora. Eu gosto disso, pois agora eles têm mais a perder. Todos foram promovidos de alguma forma. Eu vejo a informação nos chips em seus cérebros pela Rede. Através da Rede eu tenho acesso a esses chips. E eles me dão acesso a seus cérebros. Depois de uma pequena reprogramação, eu queimo esses chips e as células neurais em volta deles. Eles não vão morrer. Só não serão capazes de sentir coisa alguma.

Eu corto o link. Devo cortar sua garganta? Não. Vou sentar aqui perto e escutá-lo. Seu grito é um belo som, cheio de timbre e melodia. Não existe som mais satisfatório que o grito de um Tecnocrata. Eu adapto rapidamente os Valores de Impacto para poder cuidar dele por muito tempo. Eu olho suas ondas cerebrais no meu monitor EEG. Ele provavelmente vai morrer dentro de alguns meses, de qualquer forma. O choque diário e a impossibilidade de dormir irão matá-lo. Até lá eu terei minha própria orquestra aqui nesta sala, até ele ficar rouco. Eu jogo um pouco de água pela sua garganta para ele não arrebentar as cordas vocais rápido demais.

É fácil pensar demais em coisas assim quando não se sente nada. Eles mataram meus nervos. Deviam ter matado tudo em mim.

local original: Devir
nome original: Prelúdio
autor(es): Darren McKeeman
tradutor(es):

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