Jogos da Morte


Aviso: Mago: A Ascensão é um jogo. É um jogo sobre temas maduros e questões complexas. O material à seguir tem relação com este jogo. Como tal, ele não requer apenas imaginação, mas também bom senso. O bom senso diz que as palavras de um jogo imaginário não são reais. O bom senso diz que as pessoas não devem tentar realizar "feitiços mágicos" baseadas em uma criação totalmente derivada da imaginação de outra pessoa. O bom senso diz que você não deve tentar desvendar agentes do sobrenatural com inspiração em uma obra completamente fictícia. O bom senso diz que jogos são apenas para se divertir e quando eles acabam, é hora de colocá-los de lado.
Se você perceber que está distante do bom senso, desligue seu computador, afaste-se calmamente e procure ajuda profissional.
Para o restante de vocês, aproveitem as irrestritas possibilidades de sua imaginação.


"Aquele que finge olhar a morte sem medo, mente."
- Jean-Jacques Rousseau


Me lembro como se fosse hoje o dia em que devia ter morrido, era uma fria manhã de outono, o céu estava limpo e o vento gelado cortava minha face. Eu e alguns amigos meus iríamos pegar o trem para voltarmos para Berlin, mas eu sentia algo ruim. Isso não importava, afinal logo estaria em casa. Podia ver nos rostos dos meus amigos largos sorrisos, e uma felicidade contagiante. Estávamos todos contentes havíamos terminado o grande trabalho de nossas vidas.

Não demorou muito para o trem chegar, logo estavam todos sentados em seus respectivos lugares. Nos minutos seguintes a locomotiva dava inicio a nossa viagem de volta ao lar. A paisagem que via pela minha janela me fez lembrar dos quadros que minha pintava em suas horas vagas. As montanhas azuis e brancas, os campos ainda verdes e as arvores já estavam perdendo suas folhas. O vento frio que entrava pela janela adormecia meu rosto, foi então que eu vi. O fim daquilo que cada um de nós considera o mais importante, o fim da vida... O fim da minha vida!! E de todos que estavam no trem!..

Foi terrível os corpos em chamas os gritos de dor e pavor. Minha melhor amiga decapitada ao meu lado, seus olhos de pavor penetravam os meus, enquanto tudo se perdia num mar de chamas. Logo me dei conta que eu também fazia parte daquele mar, minhas mãos se retorciam em cinzas assim como o resto de meu corpo, a dor impedia meus pensamentos. Foi nesse momento que acordei assustada, amparada por meus amigos.

Agora estava tudo claro, o meu sentimento ruim, os sonhos, os presságios... é chegada a minha hora!! Mais ainda não estou pronta! Tenho tanto a fazer! Muitos a me despedir! Não... não posso morrer agora!! Não é minha hora! O desespero tomava conta de minha alma. Foi quando soltei um grito que abalou todo o vagão:
- Nós todos vamos morrer!!!!

O pavor tomou conta de meu corpo, e eu entrei em pânico. Logo fui acudida, todos tentavam me acalmar, me deram chá e comprimidos para que eu pudesse dormir o resto da viagem. Mas o sono não vinha, o pavor crescia, todos tentaram me convencer que tudo aquilo havia sido um sonho ruim.

E assim foi até que os presságios voltaram. Um homem a algumas cadeiras da minha frente começou a ter um infarto, logo foi socorrido por um médico que estava no trem. Não demorou muito até que o trem fez uma parada não prevista em uma estação em uma pequena cidade no alto das colinas. Logo o homem, um senhor a qual a idade já era avançada, foi retirado do trem para ser encaminhado para o hospital mais próximo. Eu já tinha visto tudo aquilo e minha agonia não deixava minha mente em paz. De um surto de loucura peguei minha mochila e comecei a correr, chorava e minhas lágrimas caiam no que logo seria só cinzas. Corri e como se uma sensação de alívio imediato me possuísse, eu estava fora do trem sobre a plataforma de embarque e sob o gélido sol das colinas.

Três dos meus amigos me seguiram para ver o que estava acontecendo, tentei falar mas minha palavras eram engolidas por meus prantos e soluços. Tentaram me colocar no trem mais me recusei a ir. Então foi decidido que eles ficariam comigo enquanto os demais continuariam a viagem, pegaríamos o próximo trem este deveria chegar quatro horas após o que partia. Ficamos na plataforma observando nosso trem partir, ele descia a colina a cada momento adquirindo mais velocidade. Ouvia de meus amigos palavras reconfortantes, que logo estaríamos todos juntos tomando um bom vinho em Berlin.

As cenas que seguirão partiram o meu coração, depois de um enorme estrondo, ao longe podia se ver fumaça e chamas que subiam sobre o topo das arvores. Eu nunca estive tão triste por estar certa, e nunca tão confusa por causa do Por que? . Todos se entreolharam e um silêncio mórbido tomou conta de nosso grupo, em minha mente eu podia ouvir os gritos de dor e pavor, eu ainda podia ver os corpos queimando, agora não era mais um sonho mas havia se tornado a mais dura realidade.

Muito tempo se passou até que um tomou ar e coragem para falar:

- " Isso pode ter sido outra coisa, vamos tomar um café e ver as notícias, logo saberemos que tudo está bem".
Nada estava bem, disso eu tinha certeza. Cerca de uma hora e meia depois a TV que estava no bar trazia a triste notícias e junto com elas as imagens da tragédia. Todos se espantaram e creio que suas mentes vagaram para o mesmo pensamento meu... "Eu devia estar lá!", não demorou para que todos olhassem para mim com terríveis olhares de acusação e espanto.

"- Uma terrível tragédia aconteceu nesta manhã, um trem com cerca de duzentos passageiros descarrilou quando passava por cima de uma das maiores refinarias. O impacto gerou grandes explosões, o corpo de bombeiros já chegou ao local, e luta para que o fogo não se alastre, as autoridades acreditam que não exista nenhum sobrevivente."

Quando já era tarde da noite chegou o transporte que a companhia para nos levar a Berlin. Alguns me agradeciam por ainda estar vivos, mas outras me culpavam pelo acidente, e caçoando de mim, perguntavam se o ônibus também iria explodir. O sono me tomou o resto da viagem, mesmo o sentimento de culpa não fora forte para conter meu cansaço. Ao amanhecer já estávamos em casa, abracei minha família e senti um alivio a ver que estavam bem. A chegada de alguns amigos meus não foram tão feliz, afinal muitos haviam perdido seus familiares, naquele acidente.

No dia da despedida estávamos todos na catedral, para pedir que nossos entes queridos tivessem seu descanso. Ninguém falava comigo, em parte eu compreendia, o sentimento de culpa me roubava o sono. Os investigadores passaram semanas no meu pé pensando que eu era culpada pelo acidente. Agora um mês depois eu poderia me despedir.

Mas alguém me chamou a atenção durante a missa, aquele senhor que havia sofrido o ataque, ele também estava ali. No final da missa me dirigi para trocar algumas palavras com ele, mas fui surpreendida pelas palavras dele.

- " A morte é igual para todos, a única coisa que difere é quando? e como? A morte tem um esquema para cada um de nós, haverá um dia em que eu irei morrer e você também irá... você não pode enganar a morte por toda a vida, um dia ela virá buscar o que deixou inacabado, se você for esperta poderá jogar com a morte, ela não é como ladrão que chega sem avisar, sinta a brisa gélida do inferno, veja os avisos, e tente sobreviver por mais uma rodada."

Antes que eu pudesse perguntar algo ele se foi, mas o silencio para minha reflexão sobre suas palavras fora interrompido por um dos sobreviventes que me agradecia, a nova oportunidade de uma vida inteira pela frente. Isso jamais saiu de minha mente.

Depois de alguns meses, eu havia pesquisado sobre as regras do jogo, mais tudo não parecia de ter sido uma terrível coincidência, mas logo veio a primeira morte, a morte havia voltado para acabar com aquilo que começou. Quando será minha vez? Como morrerei? Agora estou pronta, me preparo desde o dia do acidente. Estou disposta a jogar, a jogar por mais um tempo de vida, mais um tempo para que eu cumpra com minhas ambições. Estou pronta para burlar novamente a roda da vida. Eu sinto a brisa, eu vejo os presságios. E você está pronto para jogar?

local original: Page of Mirrors
nome original: Jogos da Morte
autor(es): Van Slanzar
tradutor(es):

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