Entrevista com um Nashimite


Aviso: Mago: A Ascensão é um jogo. É um jogo sobre temas maduros e questões complexas. O material à seguir tem relação com este jogo. Como tal, ele não requer apenas imaginação, mas também bom senso. O bom senso diz que as palavras de um jogo imaginário não são reais. O bom senso diz que as pessoas não devem tentar realizar "feitiços mágicos" baseadas em uma criação totalmente derivada da imaginação de outra pessoa. O bom senso diz que você não deve tentar desvendar agentes do sobrenatural com inspiração em uma obra completamente fictícia. O bom senso diz que jogos são apenas para se divertir e quando eles acabam, é hora de colocá-los de lado.
Se você perceber que está distante do bom senso, desligue seu computador, afaste-se calmamente e procure ajuda profissional.
Para o restante de vocês, aproveitem as irrestritas possibilidades de sua imaginação.


Como uma parte de meus estudos das facções logomânticas, eu encontrei referências para os Nashimites junto ao Coro Celestial. É dito que este grupo acredita que Deus contém o bem e o mal, e que estes não podem existir um sem o outro. Desnecessário dizer, esta não é uma visão popular entre o Coro, assim eu fui forçado a procurar por muito tempo, antes de encontrar uma corista para discutir o assunto. Eu a encontrei sem querer no Norte gelado, em uma capela na Suécia aparentemente liberal que parece ter se tornado um santuário para os Nashimites que são perseguidos.

Eu entrevistei Verônica: sentado em um banco no Stockholm Northern Cemetery num dia ensolarado de primavera. Algumas gaivotas estavam construindo um ninho ruidosamente em cima de um mausoléu que pertence à um industrial morto a muito tempo, e em algum lugar um jardineiro estava movendo a grama.

Entrevistador: Você poderia explicar sua fé para mim?
Verônica: Fé... esta é uma palavra importante. Eu acho que você está familiarizado com nossa visão da criação?

Entrevistador: Mais ou menos. É um pouco Gnóstica, não é? O Uno criou todas as coisas á partir de Sua essência, deixando fragmentos de Seu espírito divino presos dentro da matéria.
Verônica: Sim. Olhe esta pedra. Do que é feito? Um aprendiz responderá imediatamente: Quintessência. Mas o que é Quintessência? Não, não é o poder de Deus. É Deus. Deus está todas as coisas, e todas as coisas estão em Deus. Não pode haver nada que não esteja em Deus... mas claro que, a maioria das coisas e seres se esqueceu disto. Deus em Sua pura forma é irreconhecível para seres finitos como nós. É simplesmente muito grande, compreendendo tudo.

Entrevistador: Inclusive o mal?
Verônica: Exatamente. Considerando que tudo o que existe no é de Deus, até mesmo o mal é de Deus .

Entrevistador: Assim você não aceita a visão que o mal é apenas a ausência do bem?
Verônica: Não. Qualquer pessoa que tenta resolver o teorema de teodicé encontra dificuldade porque ela tem que explicar por que Deus não faz algo sobre isto. Se ela diz que Deus não pode fazer nada sobre mal, então ela nega a onipotência de Deus que é uma das doutrinas principais de nossa tradição, e se ela diz que Deus pode fazer algo sobre isto então ela implica que Deus deixa o mal existir - que é equivalente a dizer que Deus é responsável pelo mal. A única posição consistente é aceitar aquela de que Deus está além do bem e do mal .

Entrevistador: Mas você vai um pouco mais adiante dizendo que o mal está em Deus, não é? Até onde eu entendo suas visões, você tem a mesma opinião sobre o bem?
Verônica: Luz e escuridão estão em equilíbrio perfeito. Eu sei que este equilíbrio pode ser influenciado por nossas ações, mas isto parece improvável. Para Deus todas as horas e lugares são um só, e uma troca no equilíbrio implicaria em uma troca na natureza de Deus que está além da mudança. Eu vejo a realidade toda como uma imensa Canção onde nós tomamos parte mas podemos improvisar. Nós temos livre arbítrio, desde que isso faça parte de Deus, mas é o livre arbítrio de Deus. Nada pode acontecer se Deus não quer ou pretende, embora isto não tem que ser predeterminado.

Entrevistador: Assim a Queda foi vontade de Deus?
Verônica: Exatamente. As pessoas poderiam ver isto à princípio como a introdução de um tema dramático, substituindo a serenidade que havia antes e conseguindo continuar.

Entrevistador: Desta forma qual é o nosso papel nesta grande canção?
Verônica: Realizar a Vontade de Deus. Mas nós não entendemos isto. Nós temos que ter fé, fé em Deus, fé em nós mesmos, assim nossas vozes se tornam fortes e bonitas, sem se importar com o que nós cantamos. A escuridão e aparentemente as vozes desafinadas são parte do todo, que nós não podemos ouvir em nosso estado limitado de consciência.
A fé é terrivelmente importante. A maior parte dos seres é pobre de fé, e só conseguem caminhar lentamente ao longo de suas vidas sem realizar a sua grandeza inerente ou sentir a presença de Deus ao seu redor. Deus não precisa da fé, afinal Ele é a base para tudo aquilo que existe, mas a fé molda nossas percepções de Deus e nossas canções .

Entrevistador: Mas se eu entendi corretamente, não importa no que eles acreditem, contanto que eles acreditem ?
Verônica: Sim. Contanto que eles tenham fé em um aspecto de Deus, eles voltam à seguir o caminho correto. Os detalhes não importam. Até mesmo alguns Satanistas são verdadeiros para Deus, afinal eles adoram Seu lado negro.

Entrevistador: Assim o infernalismo é de Deus?!
Verônica: Não exatamente... há Satanistas e Satanistas. Os Satanistas bons têm fé no mal, eles cantam com vozes escuras e realizam a Vontade de Deus fazendo o mal. Entretanto há aqueles que seguem o infernalismo para ganhar poder, sem ter fé nele. E isto é errado, porque eles irão se tornar pessoas enfadonhas e pragmáticas que servem as forças infernais.

Entrevistador: Não leve isto a mal, mas alguns dizem que os Nashimites são um refúgio para barabbi .
Verônica: Existem barabbi e barabbi também. Muitos que são chamados barabbi são realmente inocentes, eles só seguem caminhos não ortodoxos e acreditam em coisas estranhas ou inaceitáveis. Nós os aceitamos naturalmente. Os barabbi reais se venderam. Para se tornar um barabbi você deixa tudo para trás; sua fé, seu auto-respeito, suas crenças. Você se torna pouco mais que um boneco para o Nefandi que o domina, e busca lhe ajudar para diminuir o Uno. E isso é errado !

Entrevistador: Mas eu tive a impressão que você se preocupa mais com a Tecnocracia do que com o Nefandi ?
Verônica: Sim, a falta de fé da Tecnocracia é muito pior. Este é o real dever de todo mago das tradições: fazer as pessoas acreditarem. Realmente não importa qual tradição ou paradigma, desde que eles acreditem em algo. As pessoas podem dizer que todos os magos que entendem Primórdio são profetas que conhecem Deus (embora eles raramente se referem a Realidade como Deus). Tecnomagos são falsos profetas que tentam enganar as pessoas em descrença, enquanto o Nefandi são falsos profetas que tentam conduzir as pessoas em atos auto-destrutivos. Os Desauridos são profetas loucos que não seguem uma direção - eles acreditam em tudo .

Entrevistador: Assim você não vê nenhum problema em trabalhar com outras tradições ?
Verônica: Você alguma vez ponderou sobre que é necessário para fundar uma religião que funcione?

Entrevistador: Não
Verônica: Religiões são baseadas na fé, mas também no sentimento de comunidade. As pessoas têm que estar perto uma das outras, compartilhando as mesmas atitudes, podendo identificar-se com a religião. E então você precisará muito mais ao lado da fé; uma filosofia, uma ética, símbolos, ritos e ideais. Tem que ajustar-se com a sociedade. E é por isso que temos tantos tradições adversárias - religiões diferentes, todas baseadas na mesma fé, mas com atitudes diferentes. Qual domina não importa!

Entrevistador: Você reconhece a importância da religião, mas de acordo com o que você me falou antes desta entrevista você já foi uma sacerdotisa na Igreja da Suécia e a deixou. Por que?
Verônica: Na Igreja da Suécia faltava fé, e ela se tornou uma concha vazia, um tipo de religiosidade difusa sem direção, nenhuma força. E pessoalmente eu achei difícil continuar com minhas orações centradas em Cristo assim achei melhor para mim mesma e para minha própria fé deixá-los antes que os paroquianos ficassem muito confusos. Eu comecei a trabalhar diretamente com as pessoas mostrando-lhes o modo de agir ao invés de ficar orando .

Entrevistador: Eu acho que a maioria das pessoas fica um pouco surpresa com sua aceitação de bem e mal?
Verônica: Realmente elas ficam. Na maioria dos casos é melhor deixar que acreditem no que querem, e fortaleçam a sua fé, em vez de tenta explicar a simetria entre bem e mal. Magos e alguns adormecidos são a favor da verdade, mas é difícil agüentá-la. Alguns parecem pensar que isto leva somente à uma aceitação passiva de tudo, mas isso é um engano. Todos nós temos nossos deveres, nossas partes para cantar. Nossas ações refletem a Vontade de Deus.

local original: Anders Mage Page
nome original: Interview with a Nashimite
autor(es): Anders Sandberg
tradutor(es): Winter

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