Nefandi: A trilha da Atrocidade 


Aviso: Mago: A Ascensão é um jogo. É um jogo sobre temas maduros e questões complexas. O material à seguir tem relação com este jogo. Como tal, ele não requer apenas imaginação, mas também bom senso. O bom senso diz que as palavras de um jogo imaginário não são reais. O bom senso diz que as pessoas não devem tentar realizar "feitiços mágicos" baseadas em uma criação totalmente derivada da imaginação de outra pessoa. O bom senso diz que você não deve tentar desvendar agentes do sobrenatural com inspiração em uma obra completamente fictícia. O bom senso diz que jogos são apenas para se divertir e quando eles acabam, é hora de colocá-los de lado.
Se você perceber que está distante do bom senso, desligue seu computador, afaste-se calmamente e procure ajuda profissional.
Para o restante de vocês, aproveitem as irrestritas possibilidades de sua imaginação.


"[Videodrome] possui algo que você não possui, Max: uma filosofia. E é isso o que faz dela perigosa." 
- Videodrome

Caro Daniel:

Antes de tudo, aceite minhas desculpas por não comparecer ao funeral de Marguerite. Se para mim, ela foi como uma filha, eu nem consigo imaginar o que ela significava para você. Não fosse pela quase-catastrófica abertura para os Portões do Inferno que me causou inúmeros problemas, eu teria comparecido.

Entretanto, eu fiquei muito confuso quando soube que você jurou vingança, durante o seu discurso no funeral. Parece-me que Bannister e D7 já se propuseram a ajudá-lo, nesta sua missão. Mas não acredito que você vá encontrar outros dispostos a ir com vocês. Atacar os Nefandi diretamente é algo que não é sequer cogitado por muitos.

A Tecnocracia é gigantesca e brutal, os Desauridos são inúmeros e incompreensíveis, mas os Nefandi combinam o pior dos dois. Eles são organizados e, no entanto, insanos; diversificados e, no entanto, focalizados; Eu tenho estudados os Caídos por muito tempo na minha carreira, e me familiarizei com os seus métodos. O que as autoridades adormecidas e os historiadores acreditam serem mortes sem ligação, ou "limpezas étnicas", são na verdade parte de um horrível esquema.

Eu quero explicar para você a natureza do seu inimigo. Embora eu tenha poucas esperanças de dissuadir você dessa idéia, talvez minhas lições ajudem a aumentar as suas chances de voltar para a casa são e salvo.

Como é ditado pela lei dos três, os Nefandi possuem três palavras-chave ou filosofias-chave. Duas delas, Corrupção e Tentação, eu descreverei em outra oportunidade. Neste momento, vou concentrar-me no terceiro ideal, aquele que você já conheceu: Atrocidade.

Eu te conheço, Daniel, e eu sei que o seu cérebro racional está trabalhando muito para entender o que aconteceu com Marguerite. Apenas vê-la morta seria decepção suficiente, mas o modo em que ela foi assassinada, a maneira grotesca... você deve estar se perguntando, "porquê?".

Considere o estado em que o corpo de Marguerite foi encontrado, o tempo e os cuidados investidos nessa preparação. Não havia intenção de escondê-la ou de colocar a culpa em outros. O objetivo era aterrorizar e enojar; trazer uma reação emocional a quem quer que visse aquilo. Atrocidade, como a arte, é subjetiva.

A reação imediata à tal situação é o terror. Os Nefandi usam a sua horrível reputação para deter os agressores e intimidar outros que pretendam perseguí-los. Eu acredito que você encontrará poucos que estejam dispostos a invadir um labirinto Nefandi, mesmo entre aqueles que não pensariam duas vezes antes de atacar um Construto Tecnocrata.

Consiste nisso o "método" Nefandi: até mesmo a mais íntima violação possível do corpo e da mente. A Tecnocracia adoraria fazer chover fogo sobre os seus inimigos sem conseqüências, sem riscos; mas os Nefandi lutam a guerra da Ascensão face à face, pessoalmente.

Vou lhe dar um exemplo da história dos adormecidos. Na Segunda Grande Guerra, os bombardeios estratégicos em massa de cidades européias tinha como objetivo aniquilar a vontade de guerra do inimigo (não conseguiu) e a sua moral, matando civis, o que também não funcionou. A ameaça era impessoal, abstrata demais para traumatizar as pessoas da Inglaterra ou da Alemanha. Muito pelo contrário, serviu-lhes de estímulo para continuarem lutando.

Por outro lado, a campanha de terror pessoal contra os oficiais do governo organizada pelos vietcongues no Vietnã do Sul, conhecida como "Winds of Hate", intimidou com sucesso os vietnamitas. A idéia de famílias inteiras sendo massacradas em suas próprias casas, incluindo crianças, servos e até mesmo animais, causou o medo que as bombas cinematográficas não causaram.

A Atrocidade está presente em ambos os casos, mas os Nefandi a usam de forma diferente. Quando um ataque horrível e em massa não é suficiente para enfraquecer o seu inimigo, ele fortalece a vontade dele. Uma das poucas coisas em que a Tecnocracia e as Tradições concordam é que os Caídos precisam ser destruídos. Se houvesse mais colaboração nesse caso, os Nefandi já seriam menos que uma ameaça.

Mas, se a atrocidade apenas faz seu inimigo mais determinado, por que então fazê-lo?

Muitas das atrocidades cometidas pelos Nefandi servem pouco ou não chegam a ter nenhum objetivo prático por si mesmas. A função delas é ser uma espécie de treinamento. Os atos menores de violência sem sentido que os iniciados são ordenados a praticarem são o começo de um programa que visa aumentar a sua insensibilidade, começando pela tortura de animais, abusos sexuais de crianças e outros atos, e culminando nas torturas mais nefastas e no assassinato em massa.

Nós nos acostumamos a pensar que o homem é o ser menos humano que existe, mas realisticamente falando, na Primeira Grande Guerra, apenas um ou dois homens entre dez tinham disposição para matar alguém face a face, no campo de batalha. Estatísticas do exército americanos indicam que a taxa aumentou para cerca de cinco em cada dez durante a Guerra na Coréia, e chegou aos nove em cada dez no Vietnã, por causa do aprimoramento do treinamento dos soldados.

Matar alguém diretamente era uma coisa extremamente difícil para muitos. Exércitos traziam muitas forças para tornar essa tarefa mais fácil para os soldados, mas tinham sucesso limitado até o começo do século XX. Os Nefandi são grandes mestres dessa arte, guiando seus iniciados à uma crescente insensibilidade.

Os recém-iniciados cometem suas atrocidades, isso é certo, mas a grande maioria ainda faz isso com algum objetivo, seja ele poder, vingança, riqueza, ou apenas experimentam isso como gratificação física. Apenas uma minoria de novos recrutas apreciam os atos por puro prazer, e são esses os escolhidos pelos superiores para serem iniciados nos grandes mistérios dos Nefandi. Aqueles que não são verdadeiros crentes desses mistérios, são apenas peões descartáveis, não importa qual seja o poder místico ou mundano que eles possuam.

Isso nos mostra a razão dos Nefandi serem uma organização, ao invés de uma coleção de indivíduos como os Desauridos. A história nos mostra que indivíduos em grupo são capazes de coisas que nunca seriam feitas, quando eles estivessem sozinhos. A responsabilidade é dividida e a hesitação é controlada pela presenção de outros membros. Retomando o exemplo da guerra, enquanto a porcentagem de homens que matariam sozinhos era de apenas quinze por cento, a taxa entre os homens da artilharia era próxima dos cem por cento. Dois soldados trabalhando juntos asseguravam que o companheiro fizesse seu trabalho.

Cometer atrocidades une os Nefandi. Assim como o Despertar separa o mago dos Adormecidos eternamente, ele o prende à aqueles que Despertaram também. Cometer um ato horrível é outro nível dessa experiência; algo que você não pode explicar para quem não o tenha feito também. E também faz com que eles não hesitem, não voltem para trás. Se os Nefandi são uma religião, a atrocidade é o seu sacramento.

Se suas conclusões estão corretas, e apenas um culpado é diretamente responsável pela morte de Marguerite, talvez você esteja enfrentando um inimigo muito mais forte do que imagina. Apenas a elite dos Nefandi está autorizada a trabalhar sozinha; é um teste não só à competência deles, mas também à fidelidade deles à ideologia. Estes são conhecidos por não hesitar em matar, e podem fazê-lo tão repetidamente sem serem reduzidos à inutilidade pelos traumas e crises de consciência que acompanhariam essas mortes. Mesmo entre os Nefandi, há apenas uma pequena fração de indivíduos capazes de cometer tais atos. O mundo será bem melhor sem tal pessoa, mas você terá um grande desafio pela frente.

Eu temo o que está em seu caminho, Daniel. Não apenas sua missão de vingança, mas pelo que essa missão fará em você, mudando sua própria natureza. Dizia o sábio que "aquele que combate o mal precisa acautelar-se; quando você olha para o abismo, o abismo olha para você". Prometa-me que de tempos em tempos, você irá olhar profundamente dentro de você. Se você não conseguir, talvez seja a hora de parar.

Teu amigo, 

Wilhelm de Chaisse Mestre da Entropia, Ordem de Hermes

Nota do autor: a maior inspiração para esse artigo foi o livro "On Killing: The Psychological Cost of Learning to Kill in War and Society" pelo tenente-coronel Dave Grossman, 1995.

local original: Ex Libris Nocturnis
nome original: Nephandi: The Way of Atrocity
autor(es): Peter Tupper
tradutor(es): Mr. Ramuh

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