O Abismo Interior:
um mergulho dentro do vácuo


Aviso: Mago: A Ascensão é um jogo. É um jogo sobre temas maduros e questões complexas. O material à seguir tem relação com este jogo. Como tal, ele não requer apenas imaginação, mas também bom senso. O bom senso diz que as palavras de um jogo imaginário não são reais. O bom senso diz que as pessoas não devem tentar realizar "feitiços mágicos" baseadas em uma criação totalmente derivada da imaginação de outra pessoa. O bom senso diz que você não deve tentar desvendar agentes do sobrenatural com inspiração em uma obra completamente fictícia. O bom senso diz que jogos são apenas para se divertir e quando eles acabam, é hora de colocá-los de lado.
Se você perceber que está distante do bom senso, desligue seu computador, afaste-se calmamente e procure ajuda profissional.
Para o restante de vocês, aproveitem as irrestritas possibilidades de sua imaginação.


Talvez a casa realmente estivesse mal assombrada.Todo aquele acúmulo de sentimentos e pesadelos poderia realmente ter criado algum tipo de poltergeist, alguma forma de fantasma do passado que sempre que Lucy entrasse por aquelas duas portas ele atacasse procurando devorá-la, procurando entrar dentro dela...achar suas memórias mais escondidas e dolorosamente traze-las á tona.

Aquela deveria ser uma das noites mais difíceis da vida da jovem magi. Seu coração batia acelerado enquanto sua mente calmamente sentia a morte ronda-la. Era uma presença tangível, semi-sólida de que algo ruim iria acontecer. Uma fina camada de névoa londrina permeava a rua e se precipitava em gotas d’água sobre os vidros da janela. Para os olhos dela mais parecia que a névoa gostaria de entrar na casa e sufocar tanto ela quanto Agnessa que dormia no andar de cima.

Os pensamentos de Lucy estavam rondando seu último encontro com o demônio. Aqueles olhos...os lábios... seu corpo tremia de pensar como era atraente olhar no abismo dos olhos dele. Lucy conseguia sentir seu toque pelo seu corpo novamente. O fato dela estar de volta parecia leva-la novamente no tempo. Leva-la novamente para as paredes da “Apnéia”. Aquele lugar era o fim de toda sua infância, desde o dia em que sentou-se numa das mesas da boate ela nunca mais foi a mesma. Ela viu o abismo naquele lugar, ela olhou o abismo...e ele olhou de volta, respondeu a seus chamados e alegremente entregou Tell.

Ela se recorda perfeitamente de seu cabelo negro e seus olhos castanhos envolventes. Ele era uma criatura frágil, um pouco magro mas estranhamente atraente. Eles conversaram e em menos de uma hora ela já estava na cama dele. Por segundos ela pensou que poderia ter caído na armadilha de um daqueles malditos lambedores, seria melhor se ele só quisesse o seu sangue. Ele não queria o sangue dela. Ele queria a alma dela. Tudo que ela tinha a oferecer. E ele conseguiu.

Ela sentiu no primeiro beijo, ela sentiu aquela coisa invadindo seu corpo, descendo por sua garganta e parando em seu coração. Ela sentiu o frio. Chegou a tremer. Mas na hora ele estava lá pra falar com ela, pra abraçá-la e fingir dar um calor que ele não tinha. Ela se lembra perfeitamente do sorriso dele quando as primeiras lágrimas correram. Ela se lembra quando aquela depressão começou e a única pessoa que parecia entendê-la era ele.

Na época foi a morte de seus pais. Para Lucy já era algo mais do que enterrado, ela não sentia nenhuma dor mas algo nela parecia ter trazido aquilo a tona. Ela tinha se perguntado o por que deles terem que morrer de forma tão banal. Por uma noite inteira ela parecia estar no funeral deles, ela viu seus corpos serem enterrados, viu os vermes consumirem o que ela pensava ser mais sagrado. Suas ilusões de que eles eram algo especial se esvaíram ao sonhar com seus esqueletos putrefatos sob a lápide. Depois foi sua irmã e a melissa. Ela viu o quanto sua irmã era banal. Ela olhou dentro do coração dela e percebeu que era um fardo Lucy ter que depender dela. Ela gostaria de fazer tantas coisas ainda.. mas seus pais morreram e ela tinha que sustentar a jovem Melissa, Lucy viu quanto trabalho tinha dado para a garota. Ela tinha tirado a irmã de seu namorado. Tinha criado tantas complicações exatamente na semana que a avó morreu. Lucy havia falado exatamente quando a única pessoa importante para Melissa no mundo havia morrido. E ela ainda sentia ciúmes.

Só de lembrar Lucy sente seu coração enegrecer. Ela consegue sentir o toque leve de uma mão invisível querendo puxá-la para essas sensações. O vazio aos poucos se reabrir e consumi-la por dentro. Ele havia feito esse verme canibal entrar dentro dela. E ela o odiava... mas ainda amava aqueles olhos negros, amava como só amou a uma pessoa naquele mundo. E ela sabia que amava o nada, por que aquele rosto adorável era nada mais que o abismo em forma humana. A Morte encarnada em uma visão agradável. Ela estava apaixonada pelo vácuo. E teria que tomar cuidado para não se deparar com a tentação e alegremente entregar sua alma. Alegremente ir parar naquele apartamento de subúrbio. O “lugar secreto”. O lugar.....

Por um instante Lucy abre seus olhos e um fino sorriso. O vácuo sumia conforme a garota se livrava da onda de pensamentos que carregava ela mais próxima ao abismo... ela sabia onde ele estava... ela sabia onde sua irmã estava... ele estava lá... estava lá esperando por ela... e ela iria mesmo que isso significasse o fim, ela iria resgatar sua irmã.

O instrumento da verdadeira decadência nefândica não se encontra apenas fora deles. O principal perigo reside dentro de cada um de nós. Nos cantos mais escondidos de nossas mentes se encontra a chave que abre as portas para o vácuo. Muitas vezes é um sonho ou desejo reprimido. Ou um grupo de emoções que tentamos esquecer. Todos temos nosso calcanhar de Aquiles. E eles sabem disso. Os nefandi de todos os tipos procuram atacar onde o personagem é mais fraco, eles pegam suas adagas e tateiam até achar o ponto menos acessível para encravá-las, encravá-las de forma que não seja possível retirar. Nesse sentido os servidores do limbo são ainda mais perigosos, as sua armas são impregnadas de um veneno especial, um veneno que mata lentamente infeccionando pouco a pouco as mentes dos menos cautelosos, e esse veneno é o limbo.

O limbo é o princípio entrópico que faz com que todas as criaturas acabem por ser atraídas aos domínios da destruição. É necessário entender o limbo caso se queira entender como os nefandi podem ser impedidos quando batem as portas do castelo. E esse conhecimento é perigoso por si só. Os magos que estudam as filosofias e as formas de atuação desse secto devem sempre ser monitorados. Semelhantes atraem semelhantes. E o próprio conhecimento contido na visão de mundo destes magos cegados pelo seu estado entrópico é perigoso. Para cada dia em que se pensa na entropia, mais sua mente vai nadar nela e depois de um certo ponto não existe mais volta.

O princípio do limbo é a própria decadência e entropia. As coisas caem e se desfazem voltando ao pó do qual surgiram. Como podem demonstrar muitos eutanatos, é uma constante universal. As coisas um dia vão morrer e por maior que seja a duração ela vai, cedo ou tarde, virar nada. Ao contrário dos eutanatos os nefandi não acreditam plenamente no ciclo, e aí jaz a maior diferença entre os dois sectos. Os eutanatos acreditam que a entropia e o limbo FAZEM PARTE do grande ciclo da natureza. E assim como coisas caem ao pó novos organismos nascem do que um dia elas foram. Os nefandi não conseguem conceber a criação. Para eles a verdade é que a entropia domina tudo e que todas as coisas são manifestações dela, manifestações criadas por mentes que não conseguem aceitar seu estado paradoxal de existência e não existência.

Os nefandi vêem o mundo como desequilibrado. Eles se embalam no desespero do limbo que consome seus corpos. O limbo é uma força, ele pode ser coletado em lugares de alta decadência. É como se esses lugares fossem uma espécie de “nodo” onde o vácuo que existe fora a criação pode voltar e causar destruição. A visão dos nefandi baseada na crença que eles desenvolvem ao “despertar”. É uma crença simples que o verdadeiro estado do mundo é um estado de não existência e não afirmação. A mente deles é tão distorcida que em sua iluminação sombria o dilema de como eu posso sobreviver mesmo não existindo se resolve.

Após essa iluminação a carga entrópica deles é tão grande que eles assumem a propriedade metafísica mais básica desse elemento. Eles se tornam tão unidos com o processo de destruição que não dá pra distinguir um do outro. É essa união que lhe dá poder. Conforme sua iluminação progride eles mergulham mais e mais na realidade até se diluírem a um nada. E aí está sua Ascensão, se fundir até perder toda a forma e se tornar um com o verdadeiro processo de decadência. Os nefandi unem suas consciências ao elemento que encarnam e então descendem.

local original: Page of Mirrors
nome original: Nefandi
autor(es): Kaworu Naguisa
tradutor(es):

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