Paradigma


Aviso: Mago: A Ascensão é um jogo. É um jogo sobre temas maduros e questões complexas. O material à seguir tem relação com este jogo. Como tal, ele não requer apenas imaginação, mas também bom senso. O bom senso diz que as palavras de um jogo imaginário não são reais. O bom senso diz que as pessoas não devem tentar realizar "feitiços mágicos" baseadas em uma criação totalmente derivada da imaginação de outra pessoa. O bom senso diz que você não deve tentar desvendar agentes do sobrenatural com inspiração em uma obra completamente fictícia. O bom senso diz que jogos são apenas para se divertir e quando eles acabam, é hora de colocá-los de lado.
Se você perceber que está distante do bom senso, desligue seu computador, afaste-se calmamente e procure ajuda profissional.
Para o restante de vocês, aproveitem as irrestritas possibilidades de sua imaginação.


Bom, paradigma, como bem diz em um dos livros de Mage, é a coisa mais importante e menos compreendida de todo o sistema de magia. Por que é tão importante? Magos são humanos com uma crença tão forte que podem literalmente curvar a realidade sob sua vontade. Logo, aquilo em que o mago acredita pode vir a se tornar realidade, basta ele ter vontade e Iluminação (Arete) suficientes.

Portanto, vemos que crença é fundamental para um personagem de Mage. Não basta dizer: "Ah...eu sou um assassino Euthanatos", ou "eu sou um Hermético". Lógico que a própria Tradição escolhida pelo jogador irá dizer muito sobre o personagem que está se querendo construir. No entanto, num jogo com tantas subjetividades e exceções à regra como Mage, seria impossível (e de fato é) ter dois magos de uma mesma Tradição que acreditem exatamente na mesma coisa. Por mais estereotipado que possa ser, não é todo Corista Celestial (Celestial Chorus) que tem fé, nem todo Euthanatos que é assassino, nem todo Cultista do Êxtase é um drogado. Há "N" maneiras de tornar seu personagem único e este é o motivo principal de se recomendar que trabalhe-se um paradigma mágico.

Além de adicionar profundidade (background) à personagem, um paradigma mais elaborado do que simplesmente "eu sou de Tradição X", faz com que a interpretação de tudo relacionado à vida mística da personagem seja personalizado de acordo com sua própria crença. Imagine por exemplo um Orador dos Sonhos (Dreamspeaker). Imediatamente, você pensa num índio, um xamã. Mas elaborando mais o paradigma do mesmo personagem, poderíamos transformá-lo num andarilho de sonhos, meio Sandman, ou talvez num xamã tecnológico, com Foco personalizado, bem fora do estereótipo. E mesmo o estereótipo pode ser trabalhado. Então você quer ser um a bruxa da floresta? Ótimo! Mas o que sua bruxa acredita que faz com que ela controle a tempestade? É uma dádiva de Thor, ou a língua secreta das flores que faz com que ela converse com os ventos? Talvez ela comande a tempestade...ou talvez a tempestade atenda a um pedido que precisa ser retribuído. Percebeu como modifica? Muito melhor do que dizer que usou Vida 3 para aumentar seu vigor, o personagem Akáshico realiza o ritual de respiração secreto da família Yamato e torna seu ventre mais vigoroso. Mas um mesmo Akáshico xintoísta poderia pedir aos espíritos locais que o dessem a resistência necessária para cumprir sua tarefa. Mesma tradição, modos diferentes.

Em resumo, porque elaborar um paradigma? Para ter um personagem bem mais do que tridimensional e se divertir bem mais em jogo. O que é um Paradigma Mágico? É tão somente o conjunto de crenças e métodos pelos quais o Mago é capaz de alterar a realidade. Então, quando um Hermético acredita que pode alterar a sua forma física através da ingestão de certos elementos alquímicos, enquanto outro acredita que basta realizar o Ritual de Transmutação ensinado em Enochian diretamente pelo Anjo Gabriel, ambos estão fazendo o mesmo efeito, mas por meio de crenças diferentes, Paradigmas Mágicos diferentes.

Foco tem uma parcela muito importante na implementação do Paradigma. A regra da terceira edição diz que um mago pode utilizar quaisquer Foco para um determinado efeito mágico, desde que esteja incluso em seu paradigma. Mais do que determinar que um Verbena não pode se valer de um pentagrama de Herméticos, esta passagem nos faz pensar o que é exatamente válido como Foco para diferentes magos da mesma Tradição e até alunos do mesmo tutor. Tome dois Verbena: Um típico hippie-new-age-pagan-wannabe e um Druida, conhecedor dos antigos rituais Celtas de sacrifício e sangue. Será que você veria o New Ager realizando o sacrifício de uma cabra em nome da fertilidade ou o Druida pondo cristais de quartzo na testa para meditar? Certamente não, pois eles não acreditam na explicação "lógica" de magia um do outro. E perceba que falamos de dois indivíduos de mesma Tradição.

Ainda o contrário pode acontecer. Duas Tradições diferentes utilizando um mesmo Foco. No entanto, o modo como eles imaginam que aquilo funciona é sempre diferente. Tome os Verbena e os Cultistas do Êxtase. Ambos costumam utilizar sexo como um poderoso Foco. O primeiro indulge em sexo pela sacralidade do ato, enquanto o segundo pelo seu poder de expandir a consciência através do prazer.

De qualquer forma, Foco deve tanto combinar com o paradigma do Mago em questão como combinar com a própria magia realizada. Para funcionar, uma magia deve ser conjurada utilizando Foco com significância (Ressonância) para com a mesma. Conjurar um raio elétrico com Forças utilizando um cristal gera ressonância contrária, dificultando a magia. Se a magia é furiosa, utilize-se de Foco que demonstre tal fúria. Se for introspectiva, utilize algo que seja introspectivo. Ou seja, não é por que seu foco para Forças é uma pilha que seu mago pode atear fogo na tecnocracia somente mostrando a pilha para eles. Todo Foco deve ter um contexto dentro do efeito desejado.

Tal significância faz com que Rotinas raramente possam ser compreendidas fora de sua Tradição original e às vezes adaptadas para o paradigma específico de um mago da mesma Tradição de origem da Rotina. Nunca um Hermético entenderia os processos pelos quais um Euthanatos realiza a Agama Sojourn, a morte ritual pela qual todos Euthanatos passam. E mesmo para alguns Euthanatos mais tecnologicamente inclinados como os Lhaksmiths, a Agama é dificil de ser compreendida, dada à sua ritualidade e práticas ancestrais. Não é todo mundo que sabe sânscrito hoje em dia.

Outra cosia a ser notada sobre Foco é a sua praticidade. Logicamente, os jogadores preferem que suas magias estejam prontas para serem feitas sempre que eles queiram. Por isso é que há tanta antipatia por Foco e Paradigma. Tais coisas dificultam a realização do feitiço, bem como deixa o processo lento ou mesmo impossível de ser conjurado na hora. Mas nem todo Foco deve ser prático. Na verdade, poucos deveriam ser. Um elemento que faz com que o mago se concentre e acredite poder dobrar a realidade nunca deveria ser prático ou fácil de se realizar. É algo do tipo um personagem Hermético não utilizar o pentagrama com a Chave de Salomão só pq ele demora duas horas para ser preparado. Ora, mas a Chave de Salomão é um recurso utilizado há milênios pelos Herméticos! Não há motivos pelos quais ele não deva se utilizar deste recurso...ou pelo menos ele não deveria ser descartado por motivos de praticidade. Uma das graças de Mage é que apesar de um Mago potencialmente poder fazer tudo, ele é limitado por suas próprias crenças. Então, se um Hermético for ensinado que para conjurar os espíritos ele precisa fazer o tal pentagrama, ele o fará se puder. Se ele estiver no meio de uma fuga da Tecnocracia, no meio da rua, sem seus instrumentos, ele simplesmente acredita que é incapaz de conjurar qualquer espírito. É o preço por sua própria crença. Óbvio que pode se improvisar, mas às vezes a improvisação simplesmente não é válida. Na melhor das hipóteses, a improvisação torna a magia bem mais difícil de ser conjurada. No caso do nosso pobre Hermético, ele poderia conjurar os espíritos por meio de Enochian ou outra língua arcana. Mas não seria a melhor forma de fazê-lo, portanto ele teria uma penalidade ao tentar a magia mesmo assim.

Mas no final das contas, Paradigma e Foco só têm uma função prática dentro do sistema: fazer as coisas ficarem mais divertidas. Não importam os bônus, nem as penalidades. Só a diversão conta.

Entrando mais na mecânica, para se elaborar um paradigma para uma personagem, precisa-se responder três questões na hora da construção de seu histórico. São elas:

A crença do mago na Magia e pq ela funciona;
A crença do mago sobre o que é a realidade e;
A teoria do mago de como a sua magia modifica a realidade.

E ainda variações, misturas e/ou supressões destes três elementos.

Respondendo estas três questões, estamos há meio caminho de elaborar um paradigma mágico completo. Um bom truque é escolher primeiro a Tradição que se quer jogar e brincar de distorcer ou personalizar a visão da Tradição em questão para se obter o paradigma desejado.

Quando se tem em mente o que o Mago acha que é a magia, a realidade e como elas interagem, deve-se pensar se a tal crença é para o Mago uma verdade absoluta, uma verdade que funciona muito bem para ele, uma forma entre muitas outras, ou simplesmente apenas mais um jeito que ele aprendeu a fazer magia. Ou seja, seu paradigma pode ser Rígido, Fechado, Aberto ou Liberal.

Rígido: Seu jeito é o único certo. Os outros podem fazer magia...mas não estão fazendo direito.
Fechado: Seu jeito funciona para você. Você pode fazer com que os outros vejam as coisas do seu jeito não porque você ache que eles estão erradas, mas sim porque você sabe o que funciona para você mesmo.
Aberto: Seu jeito é um entre muitos e cada um deve achar o que funcione melhor para si.
Liberal: Não há uma crença fixa. Você usa o que funciona ou o que te ensinarem.

Tendo isso, pode-se optar por tentar explicar a realidade através da Esfera de Afinidade do Mago. Por exemplo, um Filho do Éter (Son of Ether) pode acreditar que os Espíritos são a manifestação mais sensível do Ether e a partir deles, o resto da realidade é composto (Paradigma baseado na esfera de Espírito). Um mesmo Son of Ether pode achar que na verdade, são as Forças da natureza que governam tudo, já que tudo é composto por átomos com cargas elétricas (baseado em Forças. Os Cult of Ecstasy, em sua maioria, crêem que a chave para a realidade é a esfera de Tempo, pois tudo está sujeito ao tempo. Não há dinamicidade sem tempo, nem morte, nem nada. Só há estaticidade, falta de movimento. Nada existiu, nem vai existir, portanto, nada existe. Tentar explicar a realidade através de uma ou duas esferas é um bom recurso para criar um paradigma.

Eu pessoalmente creio que as esferas devem ser explicadas de acordo com o paradigma da personagem e não o contrário. Às vezes pode tornar muito limitante fazer com que um personagem explique toda a realidade pela perspectiva de uma única esfera, mas novamente, nem paradigma, nem Foco devem ser necessariamente práticos.

Por fim, o próprio background da personagem é o fator mais importante. Se seu personagem era um padre que despertou e foi assimilado dentro dos Celestial Chorus, porque diabos ele acreditaria que uma escopeta faria ele operar Forças? Do mesmo modo, a Essência do Avatar da personagem participa da mistura.

Para exemplificar tudo isto, segue o paradigma de um dos NPC's de minha Crônica, um Adepto da Virtualidade ( Virtual Adept ) cujo apelido é Midas (estranho é que ninguém sabe, nem teve a curiosidade de perguntar seu nome verdadeiro). E se acharam complicado até agora, acreditem...é muito fácil fazer um paradigma. Eu fiz este abaixo em mais ou menos meia-hora.

Notem como tudo em Midas gira no fato de ele ser um webdesigner. Ele já era webdesigner antes de se tornar mago e ele despertou em ocasião de seu trabalho. Logo, o modo como ele modifica a realidade, seus focos, são coisas bem próximas a ele, coisas bem dentro de sua realidade.

Paradigma de Midas dos Virtual Adepts.

O mundo é tal qual a world wide web. De fato, a web é um reflexo do que os mais esotéricos chamam de "a criação". Cada website, cada chat, cada e-mail que circula é um organismo, um elemento desta criação, deste reflexo. Estes dois "universos" são tão interligados que eles interagem uns com os outros. As alterações que o homem opera deste lado da realidade, reverberam na web. O que poucos percebem é que as manipulações dentro da web produzem o mesmo efeito. Basta ver as formas mais óbvias para confirmar esta suspeita: chats e e-mails diminuíram fronteiras e tempo, websites expandem o conhecimento e a consciência e assim por diante. De modo menor e mais limitado, qualquer pessoa pode operar tais mudanças, no entanto, alguém que saiba dos comandos corretos, URLs precisas e tiver os programas e equipamentos necessários pode literalmente reorganizar e redesenhar a realidade.

Esfera de afinidade: Correspondência (A web e a "realidade" se correspondem, são reflexos um do outro. Pode-se dizer que são um único lugar.)

Essência: Questing (A grande busca, ainda que inconsciente de Midas, é achar um tipo de "código fonte da realidade")

Estilo do Paradigma: Fechado (Ele é um webdesigner...nada poderia funcionar para ele a não ser webdesign )

Esferas:

Correspondência: Assim como o espaço físico da web é apenas uma questão de mudança de url, assim também é o espaço no mundo "real". Por meio da ressonância entre a web e a realidade, a mudança em um opera no outro. Foco principal: URLs

Vida: Seres vivos são como aplicativos de java, flash e outros recursos que dão vida e dinamicidade à web. Foco principal: upload e dowload de códigos alterando o programa dominante.

Matéria: A matéria não viva é menos maleável, mas é bem mais previsível do que outros padrões. É como um website. Se for alterado de forma criativa, pode obter resultados muito bons, apesar de simples. Foco principal: HTML, ASP, PHP e outras linguagens de webdesign.

Primórdio: Primórdio é algo que existe, apesar de quase nunca poder ser tocado. É algo que está em todo lugar e ao mesmo tempo em lugar algum. É como um domínio pronto para ser utilizado. Uma URL inexistente, pronta para ser criada... Foco: Network

É isto, Paradigma é um conceito difícil de ser compreendido, mas que na verdade não é tão complexo assim. Estas mecânicas servem tão somente para facilitar a criação de uma personagem mais consistente e de forma alguma é um evangelho para ser seguido. Se qualquer uma destas "guidelines" não servir para seus objetivos, sinta-se livre para descartá-lo, apesar de ser óbvio que EU tenho este texto como sendo o jeito correto. Qualquer dúvida, sintam-se livres para me mandarem e-mails com perguntas ou mesmo seus paradigmas para eu dar uma olhada. Invistam em paradigma, vai mudar o jeito como vocês interpretam suas personagens. Mudou o meu e mudou o jeito dos meus jogadores para muito melhor.

Abraços,

Jacques Waller Vulgo Quaesitori

local original: Page of Mirrors
nome original: Paradigma
autor(es): Jacques Waller
tradutor(es):

 Navegação Rápida