O instinto mágiko


Aviso: Mago: A Ascensão é um jogo. É um jogo sobre temas maduros e questões complexas. O material à seguir tem relação com este jogo. Como tal, ele não requer apenas imaginação, mas também bom senso. O bom senso diz que as palavras de um jogo imaginário não são reais. O bom senso diz que as pessoas não devem tentar realizar "feitiços mágicos" baseadas em uma criação totalmente derivada da imaginação de outra pessoa. O bom senso diz que você não deve tentar desvendar agentes do sobrenatural com inspiração em uma obra completamente fictícia. O bom senso diz que jogos são apenas para se divertir e quando eles acabam, é hora de colocá-los de lado.
Se você perceber que está distante do bom senso, desligue seu computador, afaste-se calmamente e procure ajuda profissional.
Para o restante de vocês, aproveitem as irrestritas possibilidades de sua imaginação.


Lucy andava calmamente pelo corredor do pequeno apartamento de sua nova hospedeira em nova York. O blusão que vestia era emprestado, tão maior que ela que simplesmente usava-o como pijama, ela lembrava de como fazia isso desde sua infância. Era uma antiga blusa social já desgasta, provavelmente era vermelha quando fora comprada mas já estava com um tom rosa claro nessas noites. Seus botões eram de marfim, provavelmente uma blusa cara. Seus passos eram rápidos, o assoalho estava frio e ela queria correr para seu quarto, até faria isso se não estivesse carregando uma grande caneca de chocolate quente.

Seu quarto era bem mobiliado, ela mesma fizera alguns acréscimos após chegar tornando-o mais pessoal. Estava impressionada com a hospitalidade de Jane. Esse era o nome de sua nova tutora, tão simples que ela achava engraçado. todos os verbenas escolhem nomes tão complexos e cheios de significados secretos que Jane parecia o nome de um neófito na tradição. Pensando bem quem era ela para reclamar? Lucy...que coisa clichê. Aliais todas as amigas dela tinham nomes tão comuns. Mal se preocuparam em escolher pseudônimos fortes. Carrie, Sally, Trish... mas que conjunto criativo não?

Não existia necessidade real de nomes complexos, elas não eram complexas em quase nada mesmo. Elas eram vazias. Outro pensamento engraçado. Só por serem vazias elas tinham que ser simples... se alguém pudesse ler sua mente agora, se Carrie pudesse lê-la agora. Ela era tão defensiva quanto ao fato de ser vazia. Qualquer briga era briga quando se tratava em defender o valor de sua “tradição”. Aliais ela não tinha certeza se era realmente vazia, tudo bem ela andava como uma vazia, falava como uma vazia, lucy era até mesmo assombrada pelo vazio, mas... Sua mágika seguia os costumes dos verbenas. Ela havia aprendido quase tudo com os verbenas. Foi criada por uma e teve três tutoras da tradição. Ela era um verbena!

Ou não... Parando realmente pra pensar ela nunca usou um feitiço igual aos de suas tutoras. Ela usava muitos dos “focus”(ou assim elas gostavam de chamar) mas a forma sempre foi tão diferente. O que a fazia pensar algumas vezes: será que elas me ensinaram alguma coisa? Era uma pergunta válida. Havia tanta coisa que elas faziam que ela não tinha nem idéia de como sequer tentar, em compensação ela nunca fazia nada igual a elas. Trish a considerava vazia por usar a intuição ao invés da repetição. As mentoras dela sempre falaram sobre seu estilo individual que , apesar de ser parecido, não era vazio....ela era uma verbena.

Ou uma vazia...

Carrie havia falado alguma vezes sobre o que era ser uma vazia, mas normalmente as coisas ficavam embaçadas no que se tocava a mágika, afinal eles usavam “focus” que pertenciam a diferentes tradições. E isso não fazia deles parte das tradições até algum ponto? Talvez não existissem vazios...ou talvez eles existissem, mas fosse vazios de suas próprias tradições. O que era um outro pensamento engraçado quando se via Carrie discursar sobre como eles tinham uma “forma diferente de fazer mágikas”.

Lucy chega dentro do quarto ligando a luz e pulando sobre o tapete persa. Os pelos do tapete e sua cor vermelha (que talvez um dia ficasse rosa e desgasta como a camisa) faziam-na sentir bem melhor. Talvez esse fosse o motivo da divisão das cores entre “cores frias” e “cores quentes”. Talvez toda a arte fosse divida apartir da sensação que você tem num dia frio quando toma chocolate e pisa sobre as cores dos quadros trançadas num tapete persa. Lucy ria de si mesma, o sono estava fazendo com que começa-se a pensar em coisas sem sentido.

O tapete é tão mais quente que o resto do quarto que ela puxa o cobertor e senta-se sobre ele para tomar seu chocolate. Que estava frio...

Sobre despertar e tornar-se um magi (excerto da carta)

"... Nos últimos anos andei viajando por partes da Europa e me defrontei com algumas pequenas turmas de neófitos herméticos que se intrigavam com a complexidade dos ensinamentos da Ordem. Maravilhados pela imensidão de nossas práticas, eles não conseguiam conceber como um magus poderia saber tanto. Alguns argumentavam que era simplesmente impossível, mesmo com rotinas para aumentar a memória (que no momento nenhum deles mal conseguia conceber como criar) alguém decorar tudo que os testes da ordem necessitavam. Falavam que os estudos pelos quais eles passavam eram desumanos.

Um dos meus contra argumentos era simples. Se existiam magos formados pela ordem que passaram no teste ele não era impossível. Como é conhecimento básico dentro da ordem, a substancial maioria dos nossos neófitos começa como um grupo de simples ocultistas limitados, totalmente acostumados a uma seção de formula-efeito construída pelo pensamento tecnocrata, seria uma ofensa grave, sem falar no estigma que causaria, lançar mão de teorias sobre o despertar para aqueles que ainda não despertaram. Saber sobre a existência do despertar e busca-lo conscientemente é apenas se enganar, por isso temos uma política de ensino. E essa política de ensino se baseia num conceito medieval de separar o joio do trigo: ‘Dê-lhes o suficiente para que despertem e se isso não funcionar, dê-lhes tanto que a única forma de aprenderem é despertando. Se não conseguirem simplesmente dê-lhes um lugar onde possam se contentar na mediocridade’.

O que muitos dentro da Ordem de Hermes não sabem é que esse tratamento não é desumano, e muito menos que eles não são gênios, ou sequer sobre humanos por conseguirem passar pelos testes. As dificuldades da época de neófito tende a criar um sentimento de superioridade entre os Herméticos, uma húbris que, apesar de ser merecida em certos pontos, tende a faze-los desdenhar de magos de outras tradições. Ironicamente esse sentimento deriva da ignorância (algo que os mesmos achariam um ultrage admitir.) sobre os métodos da ordem e sobre a própria teoria metafísica tão estudada nos testes posteriores ao disciplinato.

A mágika é instintiva. Ao contrário da tecnocracia, as tradições pregam o conhecimento pessoal acima de qualquer teoria ou verdade genérica. A realidade é consensual e, para um mago, totalmente subjetiva em sua mágika. Pode parecer estranho para um hermético, cuja ordem é tão prestigiada por seus imensos relatórios sobre teoria mágika , falar sobre subjetividade e liberdade pessoal. A verdade é que a ordem se beneficia da descoberta pessoal das mentes despertas, assim como qualquer outra tradição. Nossos métodos de ensino e o tratamento subumano dado aos estudantes é feito para que eles deixem de confiar apenas no que lêem para confiar neles mesmos. É realmente impossível para alguém que não faça mágika decorar toda a matéria que é dada pela ordem, mas o intuito não é que decorem é que confiem em seu instinto. Que simplesmente saibam o que as tabelas dizem. O despertar é exatamente isso, o saber. O que eu chamo de Instinto místiko.

O instinto a que me refiro, com qual todo mago convive durante toda sua vida é o ponto de ligação. Como uma criança aprende naturalmente a andar ou mesmo o mais solitário dos animais tenta achar uma companheira para se reproduzir , o magus desperto desenvolve um ímpeto de mudar a realidade, ele necessita de expressar seu mundo interior. O despertar marca uma visão nova sobre o mundo mas é, principalmente, guiado pelos desígnios do avatar. Todo mago sente o puxão em rumo a ascensão, ou a decadência. Um dos fatos conhecidos sobre a ascensão é que o primeiro passo é a expressão do seu interior, do seu eu mágiko.

Fazendo uma análise crítica sobre as crenças de todas as tradições chegamos ao ponto de encontrar a incongruência primordial, aquele ponto que o raciocínio precisa simplesmente acreditar pois não existe mais como a metafísica explicar. Esse ponto é onde se definem os magos despertos. O mago desperto possui seu instinto que o leva a ser capaz de navegar em meio aos mares tortuosos do paradigma das tradições. Os magos herméticos, como do exemplo, passam pelo teste apenas se forem capazes de responder as perguntas, eles precisam possuir esse instinto que fará com que de forma quase automática, por intermédio do instinto eles saibam o que responder.

Peguemos como simples exemplo um alto ritual hermético. Dentro dele existem duas aplicações latentes do instinto místiko em ação. Cada peça num ritual simboliza algo, mas esses simbolismos só fazem sentido para um hermético, um mago limitado pode tentar simplesmente decora-los enquanto um mago pode confiar no seu instinto místiko e simplesmente entende-los. Um adormecido sem treinamento não é capaz de mudar a realidade e por isso não conseguiria o efeito desejado, um mago limitado poderia simplesmente decorar o ritual e, devido apenas a crença, fazer com que ele funcionasse . o processo do mago desperto é diferente , ele intui o necessário para mudar a realidade, e devido a crença que ele aplica nessa intuição que baseada em algum paradigma o ritual, ao seu estilo, funciona. Um mago limitado seria incapaz de realizar o mesmo ritual com itens diferentes, ele precisa de um sistema para suportar seus efeitos, é totalmente dependente do paradigma, o mago desperto por sua vez tem a sua visão a aseu favor, seu instinto vai leva-lo a acreditar tanto em si quanto no paradigma. O ato de despertar permite-o inovar e realizar o mesmo efeito com itens diferentes, ou um efeito diferente com os mesmo itens da exata mesma forma.

O conceito do instinto está intimamente ligado ao ditado “ser ao invés de fazer”. O mago desperto é mágiko e seu paradigma é a explicação que ele aceita para sua mágika. Ser mágiko é algo que leva a fazer mágika. Independente do paradigma um mago acabará achando um jeito de expressar sua natureza interior. Esse ato dinâmico de mudança é o que gera o estilo pessoal. Paradigmas servem para dar indicações de como realizar as coisas, é uma forma de não ter que reinventar a roda. As crenças ou a tradição de um mago são como uma linguagem místika que permite dois magos conversarem sobre as suas próprias ferramentas e formas de enxergar o cosmos. Um fato engraçado com o qual me deparo sempre é a presença de estilos diferentes dentro de uma mesma tradição. A ordem, por exemplo, possui um teoria básica que tenta explicar a conexão do magos com o cosmos e através dessa explicação surge toda uma característica pertencente a magos herméticos (por acreditar que o homem reflete o universo tanto quanto o universo reflete o homem o mago procura significados pessoais para gerar efeitos exteriores) , características essas como: hábitos de estudo rigorosos, grandes rituais procurando expressar a intenção interior com elementos exteriores e acentuada força de vontade e ímpeto como forma de reforçar o autocontrole e o controle do universo exterior. E mesmo com todas essas características comuns e o paradigma idêntico surgem magos que geram o mesmo efeito de formas completamente diferentes.

As tradições são formadas através de interpretações do instinto místiko e da habilidade de mudar a realidade. Cada uma foi criada para ser uma ferramentas para expressar a natureza dinâmica do mago desperto. As filosofias por trás das tradições é o que as levam além de serem a visão de um mesmo conceito por olhos diferentes. Todos os sectos místikos concordam apenas em um único ponto (com exceção da tecnocracia) : um mago está conectado com o universo e essa conexão é a chave para a mágika.

Toda essa análise é um tanto quanto enjoativa para um aprendiz, mas o estudo aprofundado sobre o caráter dos paradigmas despertos pode ser útil para entender uma série de fenômenos com o qual nos encontramos no caminho. Sempre que estamos estudando as teorias dos mais velhos parecem muito fora da realidade, mas a maioria destas pode ser encontrada no interior do coração dos magos. Um magus poderia explicar todo o conhecimento que obteve com seu avatar para um discípulo que ainda sim ele não chegaria ao mesmo nível. E as verdades precisam ser sentidas, pois é o momento da descoberta que ensina, não simplesmente a repetição constante.

O que aqueles neófitos não sabiam na época é que as provas eram apenas uma fachada, e que o tempo de estudo era apenas uma doutrinação, pois eles seriam capazes de entender as respostas de forma instintiva se já houvessem despertado. A carta que estou lhe enviando contém muita das teorias e descobertas da ordem sobre a música. Você quis aprender sozinho a tocar o violino e quando você conseguir toca-lo estará seguro de si o suficiente para estudar o trabalho dos outros. O perigo de se perder nos estudos é esquecer que as fórmulas são pessoais e que você tem sempre a chave para sua própria mágika...”

Kaworu Naguisa

Lucy não podia acreditar. Ela havia passado tanto tempo para fazer aquele chocolate que... Ah, que raiva! Ela sentia seu corpo quente como o tapete. Quente como vermelho. Era o sono, ela estava implicando com coisas tão sem sentido que chegava a sentir-se uma tola. Algo difícil com todo o ego que ela ostentava. Ela tentava beber o chocolate, mas estava tão frio...ela tinha que fazer alguma coisa.

Lucy sabia convocar fogo, ela havia aprendido a transformar a sua dor em um estopim para queimar coisas. Ela ainda se lembrava como havia inflamado sua irmã. Ela se lembra de como simplesmente tocou nos próprios fios que formavam o corpo dela e, com um único e angustiado beijo , queimou todos. Era a única forma de se lidar com aquela situação. Ela teve que improvisar na hora, mas fez como Agness havia ensinado-a. Ela havia usado a força da rede da vida e havia purificado a alma de sua irmã como faziam os antigos Vikings.

Lucy havia criado um símbolo todo especial só para o fogo. Esse símbolo foi desenhado ao acaso enquanto ela olhava para uma vela acesa, desde então ela sempre usou aquele símbolo para representar suas chamas, qualquer chama. Fossem elas físicas mentais ou espirituais. A chama da paixão, a chama da angústia, a chama da dor. Existia uma conexão entre todo o fogo através daquele símbolo e um chamava o outro. Agora ela estava tentando criar algo novo.

Quando se é verbena (ou vazio) sua mágika deriva da intuição. Quando se é verbena sua força vem da roda da vida e da deusa que conecta todas as forças desse mundo. Quando se é vazio sua força vem dos retalhos, dos pedaços de pura mágika que se pode encontrar jogados pelo mundo, coisas que nunca foram conhecidas. E agora ela estava fazendo os dois.

Com tinta vermelha, vermelha como um dia foi sua camisa ou como é o tapete, ela marca o seu símbolo do fogo, o elemento da renovação da roda da vida, na caneca de chocolate. E em alguns instantes, após uma breve concentração a caneca borbulha. Verbena ou vazio? Não importava agora, ela simplesmente queria tomar seu chocolate e ir dormir....ela estava com sono o bastante para usar mágika para aquecer chocolate...

Essa matéria pode parecer estranha a primeira vista mas ela foi feita para ser interpretada e não simplesmente folheada. Uma das grandes respostas de mago e talvez, a mais simples dela. Uma carta de um magus hermético para um amigo e uma vazia com preguiça de ir até a cozinha denovo representam a simbologia que cenas simples de seu jogo podem ter. Os magos vivem duelando pelas suas crenças e quando você se torna um tem que tomar algum partido. Em meio ao universo dinâmico de mago, em algum lugar, se encontra uma conexão que permite alterar as leis e transformar a realidade em algo que reflita os desígnios interiores dos magus.

Quais são os focus da tradição? No que ela acredita? Por que ela é capaz de fazer mágika? Perguntas rotineiras de um jogador e que, conforme vão sendo levadas mais e mais profundamente na discussão metafísica do jogo, tomam um caráter mais interpretativo. Alguém teve que ser o primeiro mago, alguém teve que surgir com os conceitos que todos os magi utilizam nos tempos atuais. E esse magus era como todos os magi atuais. Os mesmos impulsos os consomem e a cada despertar uma nova possibilidade místika se abre. Para cada mago temos um paradigma e um estilo diferente pois os magos são a força da mudança. Uma força que, aos poucos molda o mundo conforme espalha seus conhecimentos. Entender isso é entender onde acaba o homem e inicia o desperto. É enxergar a fronteira entre a limitação e o ilimitado.

Estamos de frente com o conflito principal do magus. A união, a decadência e a Insanidade.

Como magos que desejam um mundo onde o poder pessoal seja extinto em um controle geral do universo pela humanidade como um todo, os tecnocratas tentam retirar o despertar e substitui-lo pelo pensamento iluminista e o raciocínio cientifico. Regras padronizadas , respostas gerais e principios imutáveis. O dinamismo em favor da segurança de caminhos pré-determinados, a individualidade em favor da coletividade. O corpo pela alma.

A ameaça nefandi vem de dentro. Ela leva o mago a acreditar não na possibilidade mas sim na impossibilidade. Conforme o mundo parece mais e mais deturbado o mago internaliza o sentimento de destruição. A união dele com o universo é a união do nada. A realidade é mutável pois ela é simplesmente uma ilusão e assim sendo deve ser destruída para que a verdade possa ser enxergada. A verdade que é a não existência. A verdade que é a junção de tudo de forma tão indistinta que nada exista. A busca pelo conhecimento cega o mago de forma irremediável ao ponto dele simplesmente preferir aceitar que nada mais existe.

Deixar-se levar pelo caos. Desauridos são aqueles que não mantém o equilíbrio entre o mundo exterior e o seu funcionamento e o mundo interior. Mergulhados no seu desejo de criação eles ignoram o que já foi feito em favor apenas de sua própria visão. O mundo se contorce conforme o agente da mudança mergulha em tanto caos que não é capaz de manter suas criações estáticas.

A matéria apresenta minhas conclusões para um dos dilemas do jogo. Mas sendo mago, mago, outras respostas sempre existiram. Torça, corte, corrompa, distorça a seu bel prazer as respostas aqui apresentadas. E faça sua própria mágika.

local original: Page of Mirrors
nome original: O instinto mágiko e a construção dos paradigmas, estilos e rotinas
autor(es): Kaworu Naguisa
tradutor(es):

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