Interpretando o Mal


Aviso: Mago: A Ascensão é um jogo. É um jogo sobre temas maduros e questões complexas. O material à seguir tem relação com este jogo. Como tal, ele não requer apenas imaginação, mas também bom senso. O bom senso diz que as palavras de um jogo imaginário não são reais. O bom senso diz que as pessoas não devem tentar realizar "feitiços mágicos" baseadas em uma criação totalmente derivada da imaginação de outra pessoa. O bom senso diz que você não deve tentar desvendar agentes do sobrenatural com inspiração em uma obra completamente fictícia. O bom senso diz que jogos são apenas para se divertir e quando eles acabam, é hora de colocá-los de lado.
Se você perceber que está distante do bom senso, desligue seu computador, afaste-se calmamente e procure ajuda profissional.
Para o restante de vocês, aproveitem as irrestritas possibilidades de sua imaginação.


É impossível pensar em vilões, sem pensar no "mal". Mas, afinal, o que é o mal? O mal é um valor absoluto, ou relativo? O mundo é dual (dividido entre o bem e o mal), ou não?

Em Mago: A Ascensão, essa pergunta não encontra uma resposta fácil. Isto porque, essa valoração depende do ponto de vista de cada um dos personagens. O Narrador não pode simplesmente dizer: "Eu narro um jogo onde a dualidade é relativa" se seus jogadores forem três Irmãos de Akasha e um Corista celestial. O paradigma de cada personagem deve sempre ser observado.

Vamos, entretanto, analisar algumas proposições e idéias que os narradores devem saber ao lidar com o lado "mau" da crônica, que, numa hora ou noutra, será necessário.

Analisemos, primeiro e a grosso modo, a Tecnocracia. Para as Tradições, a Tecnocracia tem sido o grande vilão, pois, além de barrar com seu próprio paradigma e o paradigma das Tradições, eles ainda tentam exterminar fisicamente os personagens. Assim, os tecnocratas se impõem como obstáculo físico, e espiritual (Mágiko) para as tradições, e podem ser considerados como os maus da história.

Olhando sob a ótica tecnocrata, entretanto, encontramos a visão contrária. Eles acreditam que estão trazendo tranqüilidade e segurança para as massas, e, portanto, as mortes que causam, tanto entre magos tradicionais, quanto entre outros seres sobrenaturais, se justificam. Eles estão matando para exterminar a insegurança e o mal. Claro, os inquisidores e Hitler pensavam assim também... Tinham outros interesses menos nobres por trás disso, mas a tecnocracia, claro, também os tem.

De qualquer forma, a Tecnocracia não é considerada incondicionalmente como má. Entretanto, os Nefandi são uma unanimidade. Isto porque, não apenas os outros os encaram como diabolistas: Eles realmente o são. Agentes da corrupção, servem a forças cruéis. Eles talvez acreditem na criação de algo novo e melhor após a destruição do mundo atual, entretanto, sabem que o resultado de seus atos não é de todo benigno. Eles confirmam servirem a grandes lordes infernais, espíritos ancestralmente maus. E mais importante: Os Nefandi ACREDITAM na dualidade. Usando as palavras do Livro das Sombras: Guia dos jogadores para Mago: A Ascensão: "Os Nefandi aceitaram há muito tempo que têm um papel duplo no plano da realidade. Primeiro, eles devem servir aos seus mestres, as forças sombrias que corrompem o universo. Em segundo lugar, eles fornecem um reflexo sombrio da realidade para as outras Tradições."

Esse mal assumido, o papel assumido pelos Nefandi, é bem diferente do mal Eutanatos, que é visto como mau pelas demais Tradições, mas, internamente, acredita-se que seus motivos são louváveis. A imagem maligna que as demais tradições formulam, o fazem quase por ignorância: Eles têm dificuldade em compreender os preceitos e ética eutanatos, tanto por este ser um grupo bastante reservado, quanto por ter valores diferentes das demais tradições. Além, é claro, da alta deturpabilidade dos ideais da Tradição, que, como os Nefandi está sempre lidando com o limiar entre a vida e a morte.

Os Cultistas do Êxtase e Vazios, seriam o símbolo de outro tipo de mal. Isso porque, apesar de não causarem destruição externa, parecem estar sempre buscando a auto destruição. De alguma forma, eles estão corrompidos, entregues a vícios e à falta de perspectiva. No caso específico dos vazios, vemos a fatalidade em que caíram como fruto do meio em que vivem, da nossa sociedade tecnocrata. Eles não são, geralmente, vistos assim DENTRO do jogo, mas qual seria a visão de nossa sociedade, cada vez mais entupida de valores dos membros dessas Tradições? Os derrotados, os viciados, mães se desesperariam em ver seus filhos em contato com eles. São uma espécie de mal diferente, que supera os limites da dualidade, talvez sintetizando-os.

Para finalizar esse artigo, cuja finalidade foi mostrar que o mal, embora seja reduzido comumente a um único valor, tem muitas facetas, há mais dois tipos de maus, que precisam ser comentados: O primeiro é o daquele sujeito, que apenas por ser diferente de todos os outros, é considerado mau pela maioria. O segundo, é o mal por corrupção: Através de promessas, manipulações e jogos de interesses, pessoas sagazes conseguem fazer com que outras sigam seus propósitos, muitas vezes quando estão pensando que estão fazendo exatamente o contrário. Essa espécie de mal é a única que tem um nome facilmente definível: Maquiavelismo. O nome deriva do pensador italiano Nicolau Maquiavel, e de impressões um pouco deturpadas de suas idéias, por pessoas que não conhecem bem a obra do cientista político. Esse mal talvez seja um dos mais interessantes em utilizar nas crônicas de RPG. Os PC's ficam frustrados e furiosos quando percebem que agiram exatamente de acordo com o que fora planejado numa trama completamente traçada justamente pela pessoa que lhes parecia menos suspeita.

Lembre-se sempre, narrador: O perigo que aparece como um mau logo de início, não é tão atrativo, e tampouco tão perigoso quanto aquele que se disfarça. Os vilões que se mostram pela força bruta e são demasiado autoconfiantes para sequer esconder seus propósitos, são os que são exterminados mais rapidamente. O mal ardiloso e sorrateiro é o mais inteligente e difícil de ser combatido. A redenção é permitida a todos, mesmo ao vilão de sua história.

local original: Page of Mirrors
nome original: Interpretando o Mal
autor(es): Verbenazinha Cayra
tradutor(es):

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