Eutanásia e Eutanatos


Aviso: Mago: A Ascensão é um jogo. É um jogo sobre temas maduros e questões complexas. O material à seguir tem relação com este jogo. Como tal, ele não requer apenas imaginação, mas também bom senso. O bom senso diz que as palavras de um jogo imaginário não são reais. O bom senso diz que as pessoas não devem tentar realizar "feitiços mágicos" baseadas em uma criação totalmente derivada da imaginação de outra pessoa. O bom senso diz que você não deve tentar desvendar agentes do sobrenatural com inspiração em uma obra completamente fictícia. O bom senso diz que jogos são apenas para se divertir e quando eles acabam, é hora de colocá-los de lado.
Se você perceber que está distante do bom senso, desligue seu computador, afaste-se calmamente e procure ajuda profissional.
Para o restante de vocês, aproveitem as irrestritas possibilidades de sua imaginação.


Princípios, valores e suposições

"Estavam apenas adivinhando, não pensavam que ele tivesse querido matar o homem. Pobres tolos! Não sabiam que as cordas da morte estavam estendidas sobre eles"
- Homero. A Odisséia, canto XXII

Introdução

Nessa matéria, analisarei, a princípio a eutanásia no mundo real, para apenas depois chegar aos nossos conhecidos Eutanatos de Mago: A Ascensão. Entretanto, vale lembrar as inevitáveis advertências e talvez você queira pular esse parágrafo. Em primeiro lugar, você pode discordar do que eu disse, concordar, ignorar, ou ter qualquer outra atitude referente a essa matéria quando você estiver jogando ou narrando mago. Entretanto, essa matéria não visa ser nada mais que uma orientação para ser utilizada durante o jogo. Não estou aconselhando nem condenando nenhuma prática ou rito, nem expressando minha opinião pessoal sobre eles, apenas expondo alguns fatos coletados por aí. O tema é um assunto polêmico em todo mundo, embora ainda pouco discutido no Brasil, e poucas constituições aprovam a prática da eutanásia, e a nossa não está entre elas.

A Eutanásia

O termo eutanásia é formado por duas palavras gregas eu, que significa "bom", "benéfico" e thanatos, que significa morte. Assim, a tradução aproximada para o termo eutanásia seria "boa morte", mas o significado do termo é um tanto complexo, e não sendo muito fácil de definí-lo. Em síntese, a prática da eutanásia consiste em matar uma pessoa cujo sofrimento é muito grande. Geralmente, considera-se que a eutanásia deve ser aplicada apenas com o consentimento do futuro morto, se ele estiver com uma doença em estado terminal que seja incurável, e cause muito sofrimento. Entretanto, essa é uma definição ambígua e muito complicada. O medo de que a eutanásia se transforme, entretanto, de morte piedosa em pretexto para massacres étnicos está presente tanto em pessoas que sejam pró-eutanásia, como nas que sejam contra. Nazistas alemães realizavam a eutanásia em judeus e homossexuais dizendo que eles sofriam de "mau incurável", o que não era verdadeiro, obviamente. Assim, o que pode ser uma prática bem intencionada de médicos tentando evitar sofrimento para doentes e despesas intermináveis para seus familiares e para o governo, pode se transformar, com uma simples mudança de interpretação, numa violação de um dos mais elementares direitos humanos.

As raras legislações que permitem a eutanásia tem parâmetros rígidos para evitar violações que incubram assassinatos. A eutanásia pode ser praticada apenas com o consentimento escrito do paciente, cuja sanidade mental possa ser comprovada, e deverá ser analisada, aprovada e executada por uma junta médica. Algumas legislações, embora não permitam a prática, têm brechas que podem ser utilizadas para reduzir as penas dos médicos que realizarem a eutanásia. E, como é uma prática ilegal, é impossível se certificar se médicos a aplicam ou não, e podem haver médicos que a pratiquem com ou sem consentimento da família, sem nunca serem descobertos.

Prós e contras

Entre os supostos benefícios da eutanásia, seus defensores apontam, principalmente, o direito da pessoa de controlar sua vida, podendo acabar com ela quando achar conveniente. Hoje em dia, temos muitos meios de prolongar a vida que seriam possíveis de serem imaginados há dois ou três séculos atrás. Alguns alegam que, muitas vezes, os médicos mantém pacientes irrecuperáveis vivos para trazer uma impressão de credibilidade, e um consolo tanto para a família, quanto para o próprio médico. E, nesse tempo onde a vida é prolongada por meios artificiais à espera de um milagre impossível, a família e o doente acabam sofrendo mais do que se encarassem a morte de frente, enquanto os hospitais lucram com diárias caríssimas de internações em UTI's.

Levando em conta essas afirmações, podemos pensar no que alguns julgariam como um tipo de eutanásia, que é interromper, ou não iniciar, tratamentos que não trariam a cura total ao paciente, apenas prolongando sua vida. E, também, podemos analisar o princípio do duplo efeito, que, tradicionalmente, é considerado como a administração de uma medida que, aparentemente, sirva para um dado fim, mas traz efeitos colaterais que servem a um segundo efeito. Um exemplo de eutanásia de duplo efeito é quando são administradas drogas para amenizar a dor em determinado paciente, mas essas drogas acabam causando sua morte. Nesse caso, alguns poderiam considerar manter um paciente cujo estado é irreversível vivo, como um duplo efeito às avessas: Traz um estado de esperança e adia a hora da morte, mas tem consequencias para o paciente enquanto durar a sua vida, e também para a família, mesmo depois que ele estiver morto. Alguns ainda consideram prolongar a vida por meios artificiais como uma tentantiva humana de "brincar de Deus"

Entretanto, a maioria dos religiosos é contra a prática da eutanásia, afirmando que apenas Deus tem o direito de tirar a vida. Também se inclui na postura contra a eutanásia, a afirmação de que a prática viola o direito à vida, que deve ser preservado até o último recurso. A vida é sagrada, e, por isso, deve-se preservá-la. Além disso, outros argumentos contrários, talvez um pouco mais científicos, são o fato de que a maior parte das dores, tanto físicas quanto mentais, já pode ser controlada através de medicamentos, e o fato de que, com o avanço da ciência, talvez se encontre a cura para a doença de que o paciente sofre antes que ele morra, caso sua vida seja prolongada. Os ativistas pró eutanásia são radicais, ao refutar todos esses argumenos dizendo que não passam de medo das pessoas de encarar a morte, pela falta de preparo psicológico.

A discussão sobre a validade moral, ética e prática da eutanásia é uma das maiores discussões atuais de uma disciplina chamada bioética, que trata de questões polêmicas relacionadas à vida, como a clonagem, o aborto e outros métodos contraceptivos. Obviamente, não existem conclusões quanto à validade ou não do ato. Existem outras questões controversas sobre a eutanásia, como se é possível aplicá-la num paciente que não possa autorizá-la, por estar inconsciente.

Tipos de Eutanásia

Além da eutanásia de duplo efeito, já mencionada acima, existem vários outros tipos de eutanásia, muito controversos, pois podem ser considerados ou não como eutanásia dependendo de quem estiver analisando-o. A eutanásia passiva consiste em deixar de tomar medidas que poderiam ser tomadas, para acelerar a morte do paciente. A eutanásia ativa engloba, além da eutanásia de duplo-efeito, o desligamento dos aparelhos, a administração de venenos, e outras ações que levem o paciente à morte piedosa. Há também o suicídio assistido, em que pacientes recebem dos médicos drogas que os levariam à morte sem dor, que eles podem aplicar em sí mesmos quando acharem que é hora de morrer.

Algumas práticas orientais tradicionais também são consideradas por alguns como eutanásia. Entre elas, o abandono ou asassinato de bebês que ocorrem em alguns países orientais, quando a família não tem condições de criá-los, quer por controle de natalidade governamental, pela impossibilidade da família em fornecer o dote para o casamento das meninas, ou por situações de pura miséria. Algumas castas de guerreiros admitem o suicídio em batalha, quer seja por extrema desnora, quer para acabar com a dor causada por ferimentos. Em algumas culturas primitivas, idosos que não tenham mais utilidade para a tribo, e não possam se sustentar sozinhos são mortos, ou se retiram para longe da aldeia para morrerem em paz.

Revendo os Eutanatos

"Em verdade, o meu caminho atravessou cem almas, cem berços, e cem dores de parto. Muitas vezes me despedí; conheço as últimas horas que desgarram o coração. Mas assim quer a minha vontade criadora, o meu destino. Ou, para me dizer mais francamente: esse destino quer ser minha vontade. Todos os meus sentimentos sofrem em mim e estão aprisionados; mas o meu querer chega sempre como libertador e mensageiro de alegria"
- Nietzche, Assim falou Zaratustra.

Considerando as pressuposições acima relacionadas sobre as origens do termo eutanásia, podemos perceber que, teoricamente, os Eutanatos não deveriam ser simplesmente assassinos frios e calculistas, que matam por capricho ou por contrato. Eles são racionais, sim, mas é justamente seu racionalismo que faz com que sintam um peso enorme sobre os ombros: Seu destino é ajudar as pessoas a morrerem melhor, mas isso não é simples: Eles devem ter certeza de que essa pessoa não tem salvação, e se cometerem um erro sua reputação, tanto magika quanto porfissional, sem dúvida será arruinada. Os Eutanatos têm um senso de justiça muito forte, e se guiam por ele, utilizando a Entropia para certificarem-se de que estão fazendo a coisa certa. São muito mais médicos e teóricos do que matadores de aluguel.

Embora a Tradição ocupe a cadeira da Entropia no conselho, a visão de entropia do "Eutanatos real padrão" é bastante restita. Eles a usam para conhecer o destino daqueles de quem cuidam, para se certificar se essa pessoa deve realmente receber a Boa Morte, ou se ela pode permanecer no mundo dos vivos. A Esfera da Vida, sob determinado ponto de vista, é bem mais importante para eles, pois lhes garante não apenas formas eficientes de matar, mas um instrumento maravilhoso para fazer com que se recuperem aqueles que possam ser recuperados. O verdadeiro objetivo dos Eutanatoi não é matar, mas melhorar a vida das pessoas de quem tratam. Apenas quando a vida é impossível, a morte deve ser a solução.

"Pesar no espírito as possibilidades de vida e de morte", para utilizar as palavras de Homero, não é tarefa fácil. Ao contrário do que possa parecer, causar mortes é fonte de sofrimento para os Eutanatoi. Eles tentam esconder isso da melhor forma possível, tentam fazer com que os que estão ao seu lado não percebam como eles estão sofrendo, entretanto eles tem sentimentos que são grandes, fortes e conflitantes. A cada morte que eles causam, precisam se apegar mais firmemente às suas crenças, pois um vacilo pode ter consequências drásticas para sua sanidade mental. Além disso, os Eutanatos com interpretações equivocadas de sua missão podem ser grandes poços de húbris. Para os Eutanatos a vida é sagrada e importantíssima, e eles a prezam muito. Entretanto, eles não tem medo de assumir que a morte também faz parte do ciclo das coisas, e que há momentos em que ela é necessária, pois a vida não tem sentido se a dor e o sofrimento forem permanentes.

O código de ética Eutanatoi

Tentando fazer uma hierarquia de valores semelhante as das Trilhas de sabedoria de Vampiro: A Máscara, o código de ética dos Eutanatos seria mais ou menos assim, sendo os primeiros pressupostos os mais importantes:

1-) Nunca negar sua missão de ajudar o destino a se cumprir.
2-) Não matar enquanto não chegar a hora determinada pelo Destino;
3-) Amenizar o sofrimento do próximo, sempre que for necessário;
4-) Não deixar que seu envolvimento pessoal com o caso interfira com seus julgamentos;
5-) Seguir as orientações da Tradição quanto aos procedimentos a serem tomados em cada caso;
6-) Sempre ouvir e julgar adequadamente as possibilidades do Destino, utilizando as informações para benefício da sociedade;
7-) Não agir de forma egoísta quando há outras pessoas em perigo;
8-) Nunca causar sofrimento deliberadamente;
9-) Não deixar-se levar por sentimentos e emoções;
10- )Buscar, sempre que possível, seu aperfeiçoamento, tanto nas artes mundanas, quanto na Magika.

Um Eutanatos pode ser corrompido facilmente se se desviar do caminho de Tradição. Ele é um instrumento para a realização do destino, não é um juiz que decide sentenças de morte. Entretanto, se ele for arrastado pela Hubris, certamente terá um fim trágico. Pode ser corrompido pelos Nefandi, ou se render aos ideias da Tecnocracia, com apenas um ou dois desvios em seu paradigma. Ainda, pode sofrer um monte de processos criminais, e ser condenado a prisão perpétua ou ao manicômio. Pode acabar se suicidando, ou sendo morto por alguém (da Tradição ou não) a quem esteja incomodando. Por outro lado, um Eutanatos bem sucedido pode ser visto como um homem bom e piedoso, e procurado por dezenas de famílias que busquem amenizar os sofrimentos de seus entes queridos que estão há meses em coma.

No mundo Magiko, as outras Tradições desconfiam dos Eutanatos, por conhecerem uma visão deturpada de suas crenças. Isso pode tornar difícil a interação dos Eutanatos com os membros das outras Tradições, e um Verbena certamente ficaria MUITO ofendido se seu paradigma fosse comparado com o paradigma dos Eutanatos, embora hajam grandes semelhanças. Os Eutanatos são uma tradição bastante unida, apesar de não hierarquizada. É comum que um Eutanatos peça ajuda a outros para resolver casos particularmente difíceis, e, apesar da maioria dos Eutanatoi não ser tão cercada de misticismo quanto membros de outras tradições, boa parte deles se reúne com os membros de sua tradição para realizar rituais, como a Katábasis (a jornada ao mundo dos mortos).

Assim, encerro este artigo, no qual mostrei parte de minha visão sobre uma de minhas Tradições preferidas. Lembro mais uma vez que este é meu ponto de vista, não constando aqui informações de caráter oficial, e espero ter conseguido me expressar com clareza. Não condeno os que usam os Eutanatos como os assassinos impiedosos do mundo sobrenatural, mas mostro que existem fatos que podem comprovar a possibilidade de uma visão um pouco diferente. Caso alguma informação não tenha ficado clara, ou haja alguma dúvida, não precisa hesitar em me mandar um e-mail. Por fim, é provável que você conheça outra concepção diferente sobre os Eutanatos. Confesso minha ignorância sobre os aspectos do tema relacionados à cultura oriental referente a esse assunto, ficando, pois, minha matéria incompleta. Apesar disso, espero que possa servir de base para sua consulta inicial, embora recomende perquisas mais detalhadas para quem se interessar pelo tema.

Verbenazinha Cayra

local original: Page of Mirrors
nome original: Eutanásia e Eutanatos: Princípios, valores e suposições
autor(es): Verbenazinha Cayra
tradutor(es):

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