Magika e Ética


Aviso: Mago: A Ascensão é um jogo. É um jogo sobre temas maduros e questões complexas. O material à seguir tem relação com este jogo. Como tal, ele não requer apenas imaginação, mas também bom senso. O bom senso diz que as palavras de um jogo imaginário não são reais. O bom senso diz que as pessoas não devem tentar realizar "feitiços mágicos" baseadas em uma criação totalmente derivada da imaginação de outra pessoa. O bom senso diz que você não deve tentar desvendar agentes do sobrenatural com inspiração em uma obra completamente fictícia. O bom senso diz que jogos são apenas para se divertir e quando eles acabam, é hora de colocá-los de lado.
Se você perceber que está distante do bom senso, desligue seu computador, afaste-se calmamente e procure ajuda profissional.
Para o restante de vocês, aproveitem as irrestritas possibilidades de sua imaginação.


Cayra se sentia muito aliviada por saber que Kyle estava em segurança. Ela havia passado parte de seus últimos meses muito preocupada com o garoto, um Órfão num lugar tão perigoso como N.Y., sempre cheia de tecnocratas. Apesar disso, as palavras de Winter a inquietavam um pouco. Desde que se conheceram, ele nunca a contrariara tão explicitamente, como quando ela disse que traria Kyle para o Labirinto. "Você está louca?" - disse ele- "Mais uma criança? Isso aqui é uma Capela ou um berçário Cayra?" Ela não tinha certeza que as palavras tinham sido essas, mas sabia que a irritação que Winter demonstrara ao proferí-las foi diretamente proporcional à frustração que ela sentira ao ouvir as palavras do companheiro.

Entretanto, à visão de Kyle, tudo passara. Ele aguçava todo o carinho maternal da Verbena, que ela mantivera durante tantos anos guardado dentro de sí, preocupada em mostrar para todos que era forte e podia se superar a cada momento, máscara que ela não precisava usar perto do menino. Ela o abraçava com força, e torcia para conseguir esconder o sentimento de Winter dos olhos de Kyle.

Já estavam há algumas horas no labirinto, e ela não tinha tanta certeza de ter conseguido. Rachel não continha a surpresa de ver que "um fracote como o Kyle tinha conseguido entrar no labirinto". A relação dos dois havia sido de ódio à primeira vista, talvez dessem um bom casal quando crescessem, apesar da diferença de idade. Winter olhava para Kyle, e depois para Cayra, como se se perguntasse em que um garoto como aquele tinha chamado a atenção da amiga. Kaworu, que até então se mantinha com um semblante enigmático, se levantou de repente, dizendo que precisava treinar suas artes. Winter disse que tinha mais o que fazer, e saiu logo depois, acompanhado de Rachel, que foi a única que saiu sem dizer nada. Sozinha com seu pupilo, Cayra perguntou:

-E então, compreende um pouco melhor a Magika agora?

Kyle não disse nada, mas sua expressão corporal mostrou que ele estava muito amedrontado. Os espelhos mostravam reflexos de um por do sol, provavelmente acontecido a muito tempo atrás, cheio de nuances de laranja e rosa, que chegavam até um arroxeado tenebroso. Cayra queria abraçá-lo e chorar, mas não havia levado o garoto até o Labirinto para demonstrar seu afeto. Era hora de ensinar um pouco ao garoto:

-Você vai aprender muito por aqui. Mas, por mais que aprenda, sempre terá que ter em mente uma pergunta: Como usará seus conhecimentos?

Talvez essa matéria pareça apenas perda de tempo para alguns, mas tentarei dissertar um pouco sobre um aspecto que me parece muito importante para o aprofundamento de personagens e histórias de Mago: A Ascensão.

Sem dúvida é claro que o paradigma de um mago contém uma série de crenças sobre como e com que finalidade a Magika deve ser usada, e que a maioria dos despertos busca a expansão de um padrão de pensamento semelhante ao seu. Portanto, todo paradigma contém preceitos morais.

Entretanto, será que há princípios comuns entre todos os paradigmas, mesmo que eles sejam tão diferentes? Ou eles não tem pouco ou nada em comum? Em que um Adepto se parece com um Corista?

Kyle estava surpreso. Podia esperar qualquer pergunta, menos aquela, e, menos ainda, o que ouviu quando Cayra prosseguiu:

-Não importa com quem você aprenderá. Pode ser comigo, com a Rachel, com o Winter, o Kaworu, ou com qualquer outra pessoa, ou até mesmo com uma situação, sempre há algo a aprender. A única coisa que validará ou não seu aprendizado será a forma que você o utilizará. Você será um mago poderoso, Kyle, mas o poder trás sempre responsabilidades. Para que você vai usar o seu poder?- ela dá uma pausa, e sorri - Calma, não precisa responder agora, é uma questão que nem eu mesma saberia responder com rapidez. Entretanto, quero que essa pergunta esteja sempre guardada em sua memória, que sempre que for usar a Magika, pergunte para si mesmo se os seus motivos são suficientemente válidos.

Uma das respostas possíveis, pode ser a afirmação de que tanto o Adepto, quanto o Corista acreditam que estão certos. É uma resposta válida, pois, caso contrário, nenhum dos dois teria a crença necessária para a Magika. Mas a ligação é muito mais profunda, pois esse conceito de "certo" está ligado ao conceito de "bem". No fundo, o "certo" do mago não é o bom para ele, mas o bom para a humanidade.

Já diriam os criadores do jogo, os magos são heróis. Não necessariamente no conceito contemporâneo da palavra, já que, muitas vezes, achamos que os heróis são seres que resolvem tudo pela força física, derrubando tudo quanto é cara mal-encarado com a super força, ou com os poderes que o domínio sobre técnicas sobrenaturais lhe concedem. Entretanto, se considerarmos o conceito de herói aceito na antiguidade, herói é aquele que faz uma jornada que o aproxime dos deuses. E esta jornada vai muito além de sair pelo mundo salvando os fracos e oprimidos. Ela consiste num aperfeiçoamento do caráter, através da conssonância entre pensamento e ação, sem que se perca de vista a formação de um ser humano melhor.

As lendas épicas que se transmitiram por muitas gerações apenas oralmente, não consistiam apenas em entretenimento, mas num instrumento de educação. Os exemplos transmitidos ao narrar as histórias eram absorvidos como experiência de vida através da identificação do indivíduo com o personagem, e ensinavam aos indivíduos a arte das relações humanas e seus princípios fundamentais. Isto porque, o caminho que o herói traçava tinha como objetivo um equilíbrio entre subjetividade, racionalidade e convívio social pautados pela ética. E o que é a ética? A lei natural, conhecida por todos os homens, não importando a linguagem que falem, o grau de instrução ou o avanço tecnológico em que sua civilização se encontra. Ela é o conhecimento dos próprios limites e o respeito aos limites alheios.

-Talvez, você seja muito novinho pra entender metade do que te digo, talvez esteja entrando muito cedo num mundo adulto demais. Mas se eu não lhe dissesse isso, não teria cumprido meu papel. Foi por meu erro em compreender esse tipo de fidelidade, que se deve ter a si mesmo, que sofri tanto nas mãos de outras pessoas e de minha própria consciência. E por isso te peço Kyle, não se traia.

Ela respirou, e olhou fundo nos olhos do garoto, que girava seu pequeno óculos de sol sob o tampo da mesa. Era impossível ter certeza de que ele estava escutando-a, e ela vacilou, por um instante. Entretanto, se eram estas as palavras que a Deusa soprava em seus ouvidos, ela deveria continuar.

-Você vai perceber que nós acreditamos em coisas muito diferentes umas das outras. Você deve conhecer e observar nossas crenças, mas descobrir aquilo em que VOCÊ acredita. Seja lá o que for, é verdadeiro. Ninguém tem o direito de negar suas crenças, e eu não tenho o direito de ensinar-lhe segundo as minhas, ignorando seu direito de pensar e escolher. Acredite em você, certifique-se de que tem motivos justos para fazer o que fizer, e eu tenho certeza que será um grande mago.

Não são todas as pessoas que seguem a Ética, mas aquelas que a buscam são facilmente distinguíveis das demais. Qualquer um, por mais tolo que seja, consegue fazer essa distinção, sabendo quando está diante de um homem nobre.

E aí está a resposta à pergunta com que iniciei esse texto: Por mais que as crenças que fornecem razão ao pensamento de cada Tradição sejam diferentes, ainda assim, todos os paradigmas, de cada uma das nove Tradições dá importância à ética. O Verdadeiro Eutanatoi, por exemplo, não é um assassino particular, mas alguém que respeita tanto o direito do outro de escolher sobre sua própria vida, que o ajuda a morrer se este sentir essa vontade. Algumas Tradições acreditam que a divindade é externa, outras acreditam que ela é interna, outras nem acreditam na existência de algo que esteja além do homem, mas todas elas visam o desenvolvimento pleno do indivíduo, cada uma ao seu meio. Mesmo a filosofia básica da Tecnocracia - Trazer segurança e paz às massas - é extremamente Ética.

Entretanto, nada indica que os magos, individualmente, trilhem o caminho mais ético, ou busquem esse equilíbrio de valorização da vida. Entenda-se que, no caso dos paradigmas tradicionais, essa é uma escolha individual. Ninguém, senão você, determinará se seu personagem seguirá uma busca ética pelo desenvolvimento, ou simplesmente se guiará por seus instintos egocêntricos de ódio e dominação. Apenas você pode me dizer se seu personagem é um herói contemporâneo ou um herói "à moda antiga", que traz consigo o verdadeiro significado do heroísmo.

Ela se levantou subitamente, e virou-se de costas para o pupilo. O menino se assustou, teve a impressão de que ela fosse virar um monstro, ou algo parecido. Mas ela havia feito isso apenas para que Kyle não visse o seu rosto.

Sentia vontade de chorar. Tinha dito algo que estava entalado em sua garganta, que se repetia em seus pensamentos há muito tempo, talvez a bem antes do que as lembranças alcançassem. E, finalmente, ela tinha dito.

Não que a pronúncia dessas palavras livrassem-na de seu peso. Ela sabia que na próxima vez que estivesse sozinha, acordada sem conseguir dormir, com a chuva a bater no vidro, que na próxima vez que se unisse alegremente aos seus amigos para celebrar um ritual, a pergunta de sempre lhe voltaria à mente: Será que seus fins eram justamente válidos? Será que ela não estava sendo egocêntrica demais, ao se aproveitar do Dom para o seu deleite? Será que ela realmente merecia seu Despertar, após tanto tempo de dúvidas, equívocos e traição.

Acaso todos os Despertos pensariam assim? Acaso alguém sentiria o mesmo? Ela não diria que aquilo era temor, tampouco precaução. Porque negava a si mesma a entrega, a aceitação? Sentia inveja das crianças: Rachel e Luíza usavam seus poderes tão despreocupadamente, eram capazes de fazê-lo sorrindo. Mas Cayra sabia que seu poder só existia por causa do sacrifício de seu mentor, a quem venerava ardorosamente

Em toda boa narrativa, a Virtude é recompensada. Em Mago, isso também deveria ser regra, pois me parece que a busca por essa ética perdida é uma das essências do jogo. Magos são apelões? Sem dúvida. Seu poder, se encarado de forma bruta, é excessivo? Sim, é. Mas, segundo a proposta do jogo, os personagens (e nós também), têm que aprender a orientar esse poder, para transformá-lo num bem maior. Nada contra o Hack and Slash (pelo contrário, ele pode ser muito divertido de vez em quando), mas para um jogo aprofundado, a relação entre Magika e Ética é essencial.

Como você, enquanto narrador, pode aproveitar esses conflitos? Primeiro, por mais que sua história seja ótima, JAMAIS IGNORE O PRELÚDIO DOS PERSONAGENS. Em segundo lugar, dê espaço para que os personagens reflitam, se aperfeiçoando não apenas no tanto de bolinhas que têm na planilha. Estimule os jogadores a pensar, falar ou escrever sobre os conflitos de seus personagens. Mesmo que isso nem sempre tenha espaço durante a seção de jogo, desenvolva esse conflito nos interlúdios. E lembre-se: O conflito externo não é necessário em TODAS as seções. Reserve algumas, especialmente depois de períodos difíceis, para que os personagens possam enfrentar seus demônios internos.

Ela enxugou uma lágrima e virou-se. Sorriu, para tentar amenizar o medo do pupilo. E, depois de um instante de contemplação, estendeu-lhe a mão. Eles saíram juntos, para Kyle conhecer o Labirinto e seus moradores.

local original: Page of Mirrors
nome original: Magika e Ética no mundo contemporâneo
autor(es): Verbenazinha Cayra
tradutor(es):

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