A Trilha Frágil


Aviso: Mago: A Ascensão é um jogo. É um jogo sobre temas maduros e questões complexas. O material à seguir tem relação com este jogo. Como tal, ele não requer apenas imaginação, mas também bom senso. O bom senso diz que as palavras de um jogo imaginário não são reais. O bom senso diz que as pessoas não devem tentar realizar "feitiços mágicos" baseadas em uma criação totalmente derivada da imaginação de outra pessoa. O bom senso diz que você não deve tentar desvendar agentes do sobrenatural com inspiração em uma obra completamente fictícia. O bom senso diz que jogos são apenas para se divertir e quando eles acabam, é hora de colocá-los de lado.
Se você perceber que está distante do bom senso, desligue seu computador, afaste-se calmamente e procure ajuda profissional.
Para o restante de vocês, aproveitem as irrestritas possibilidades de sua imaginação.


Anel de Ironia

Apesar dessa sabedoria, estou velho, agora, e morrendo como nosso Mundo. No meio milênio desde a queda da Cabala, devotei-me a uma Guerra sem fim e brigas sem sentido com aqueles que deveriam ser meus aliados. Os salões da minha Capela lar estão cheios de intrigas e participei tanto quanto qualquer um e mais do que a maioria. Sou culpado do desperdício de vidas e períodos de vida por causa de calúnias e formação de grupos, e fui um tolo.

Talvez fosse inevitável. É uma ironia cruel de nosso estado Desperto que, embora sejamos artífices da possibilidade, o tempo cubra nossas almas como uma mortalha. Temo que eu seja o mais velho de nossa estirpe vivo; embora tenha ouvido histórias e cruzado caminhos com Magi cujos anos rivalizam com os das próprias montanhas, nossa era estática deve ter acabado com eles hoje em dia. As fronteiras da possibilidade não são o que já foram, e há uma justiça cósmica dura nisso. Embora a “ciência” marche num ritmo frenético, ela arma sua própria armadilha sob seus pés; mais cedo ou mais tarde, os Tecnomantes tropeçarão na armadilha que eles próprios criaram, cortando suas próprias possibilidades tão brutalmente quanto barbarizaram nossas Artes. Já vi os sinais disso, e rio. O destino prega cada peça amarga.

A mera força não é iluminação, nem a idade em si. Nós magos estamos ligados pela Entropia interior. Por mais Dinâmicos que possamos parecer, e poderosos que possamos nos tornar, não podemos evitar em nos apoiar em padrões; esses padrões limitam nosso potencial, e sangue novo deve limpar o mármore novamente. Minhas histórias de intriga e competições pessoais que arruínam minha própria Capela são prova suficiente disso. Talvez eu nunca Ascendi junto aos Oráculos porque eu me limito com essa crença. Apesar disso, estou convencido que a juventude é visão; indisciplinada, é claro, e ignorante e despreparada, mas vital. Essa vitalidade é tirada de nós com a idade. Mesmo que diminuamos o avanço em nossos corpos, não podemos manter o peso de nossas mentes iluminadas. Quanto mais presenciamos, mais pensamos que sabemos. Quanto mais acreditamos que compreendemos, mais fixos em nossos modos nos tornamos, e mais limitados em nosso potencial. Desse modo, a juventude é a chama que ilumina o futuro. Poder é meramente polimento em lâminas embotadas.
Alegrem-se, meus jovens irmãos. O Mestre lhes fez um elogio.

Nossos amigos Eutanatos compreenderam isso; a Entropia é inevitável, mesmo para imortais. Essa é a lição de nossos primos sombras da noite, os vampiros, que ainda temos que aprender. Como aquele que sobreviveu além de muitos dos seus, posso apenas sorrir com melancolia da dor em meus ossos e dos ruídos de minhas juntas. O tempo pode ser posto de lado, mas nunca pode ser ignorado.

Se minhas palavras parecem amargas, é porque estou cansado. Estou enfadado das políticas que aleijam nosso Conselho mesmo quando quebramos o salto dos Tecnomantes. Conforme a Era do Crepúsculo se aproxima, estamos cada vez mais fortes em conjunto do que jamais estivemos em nossa concepção. Nove permanecemos, unidos, pela primeira vez desde que os Ahl-i-Batin abandonaram o sonho que eles ajudaram a criar, apenas alguns anos depois os Filhos do Éter preencheram um assento que esteve vago por quase quatrocentos anos! No mundo mortal, fé e mistério corroem as verdades vazias dos Tecnomantes. Quem sabe o que os próximos anos reservam? Mesmo assim nos dividimos em nossa Sociedade, amaldiçoados pela miopia e pela falta de fé em nossos milagres. Que tolos somos, para jogar fora o futuro por causa da discórdia! E ainda assim parecemos presos, como eu estou, aqui em meu santuário, observando as sombras, esperando pelo formigamento dos pontos de dor que me alertam sobre uma nova ameaça. Estou cansado de combater minha própria estirpe; estou enfadado de nossa estupidez.

E estou divagando. De volta a história, então, da Primeira Cabala, e para o Inferno com as incoerências de um velho!

Por eras incontáveis, a magia, de uma forma ou de outra, governou as mentes da humanidade e o tecido da realidade. Durante esse período, não havia “Tradições” como as conhecemos, embora filosofias comuns e ordens mágikas existissem. À medida que a força da “razão” estática se aproximou dos artífices dos milagres, contudo, o equilíbrio de poder se alterou. Muitas pessoas se levantaram contra os magos que tinham agido com tanta liberdade por tanto tempo e a própria realidade começou a se fechar, limitando ou destruindo milênios de obras mágikas. O processo foi gradual, mas claro.

Conforme as fronteiras da realidade se tornavam mais rígidas e a tolerância dos Adormecidos diminuía, os Magi guerreavam entre si. Os conflitos, as pragas, as perseguições e as discórdias resultantes dizimaram os Despertos e não-Despertos. A novata Ordem da Razão, composta de magos e filósofos com mentalidade científica, tiveram sucesso no caos. Com sua unidade e propósito, as Alianças da Ordem – os Artífices, a Cabala do Pensamento Puro, os Maçons, os Mestres da Razão, os Exploradores do Vácuo, a Alta Guilda, a União dos Filósofos e outros grupos menores – arbitraram disputas internas, declararam um objetivo comum de bem comum e trabalharam em prol de um teorema unificado de realidade único. As dispersas ordens místicas não tiveram chance.

No começo dos anos 40 do século XV, três mago, representando o que mais tarde se tornaria o Coro Celestial, os Verbena e a Ordem de Hermes, se reuniram e discutiram o problema. Ao redor do mundo, a magia vacilava e os feiticeiros guerreavam. Alguma coisa tinha que ser feita; um propósito, um ideal e uma metodologia comum tinham de ser formulados. Esses três magos e seus aliados passaram anos viajando pelo mundo convencendo os outros de sua estirpe a se unirem. O Tribunal resultante, chamado a Grande Convocação, começou em 1457, realizado num grande Reino chamado Horizonte.

Com magias impensáveis, os primeiros Mestres uniram seus recursos e esculpiram o Horizonte a partir da própria Realidade. Conforme cada grupo se unia a confederação, ele acrescentava um lugar de poder ao Reino, alimentando-o com Essência Primordial. Os soldados da Razão montaram cerco à esses Nodos que puderam localizar, mas novas fontes eram acrescentadas e as antigas reforçadas. Grandes batalhas varreram o Cânion de Qu’Dali, o próprio pico flutuante de Lyonesse e de Stonehenge, mas os místicos ocultaram os Nodos remanescentes com outras magias e expulsaram os invasores de suas terras.

O Reino que nos construímos continha um Grande Salão, repleto com nove assentos e um décimo central no Salão Comum. Cada assento se alimentava de outro sub-Reino, criado para se igualar ao clima preferido dos representantes. Fora do Salão comum, o Reino espelhava as estações da Terra; campos enormes forneciam comida para os visitantes e davam lugar à recreação para aqueles que se sentiam presos no Salão. Alguns viviam fora e se aventuravam apenas quando eram obrigados. Bestas míticas, cujo número havia diminuído na Terra, encontraram abrigo nos campos do Horizonte. E lá o Conselho se reuniu.

Com centenas de magos reunidos de dúzias de trilhas mágicas, o conflito era inevitável. Apesar disso, o Conselho firmou, como seus Protocolos iniciais, uma determinação para trabalharem juntos pelo bem comum e pela sobrevivência mútua. Muitos dos feiticeiros mais proeminentes da era se reuniram no Horizonte, o refúgio do futuro Conselho e seu rebanho. Por mais de nove anos, esses magos discutiram, fizeram estratégias e se digladiaram, algumas vezes literalmente, sobre as diretrizes das recém criadas “Tradições”, as Esferas de mágika e as definições e deveres dos Nove. O resultado, embora longe de ser perfeito, permanece mais ou menos intacto até hoje.

Em 1466, o Conselho dos Nove finalmente chegou a uma Resolução; progrediríamos juntos em direção a um objetivo comum, Ascensão, com um código estabelecido e (com esperança) as bênçãos dos deuses. Depois do estabelecimento dos Protocolos e dos objetivos de Ascensão, o Conselho indicou uma cabala de nove membros de Iniciados para se arriscarem no mundo mortal e obter apoio para o Conselho entre os Adormecidos e Despertos do mundo. Nove magos partiram, um de cada Tradição. Sua missão, embora com vida curta, mudou o mundo.

Esses nove Iniciados não eram mais amadores; cada um foi escolhido à dedo pelos membros do Conselho (em meio à muita politicagem) como um exemplo legítimo de sua Tradição. Pelas palavras e pelas ações, esses Magi deveriam conquistar feiticeiros, messias e outros praticantes da Mágika Verdadeira e dar auxílio, conforto e sabedoria à esses mortais desconfiados, que, embora fartos de “bruxos”, caíram sob o feitiço da Razão Científica. Eles deveriam combater os inimigos mágikos do Conselho – os Nefândi e Diabolistas, os órfãos renegados e os feiticeiros limitados controlados por demônios, Disparatados (magos que condenaram os planos do Conselho) e a Ordem da Razão – sempre que necessário, mas eram aconselhados a se afastarem de violência e a evitar a armadilha do orgulho. Em primeiro lugar, os magos da Primeira Cabala eram para serem emissários da boa-vontade. De boas intenções o inferno está cheio.

Seu líder, Heylel Teomim, escolha hermafrodita dos Solificati, se encheu de uma hubris poderosa e traiu os outros. Em 1470, Heylel os levou para um armadilha armada pela Cabala do Pensamento Puro (uma precursora caçadora-de-bruxas da Nova Ordem Mundial). Apenas o Traidor e o mago Extático, Akrites Salonikas, escaparam. Três magos morreram em combate; os quatro remanescentes foram capturados e torturados por Inquisidores mortais. Mais um morreu ali e os outros foram sentenciados à fogueira. Um grupo de magos das Tradições, guiado pelos fugitivos, resgataram os sobreviventes rastrearam o Traidor. Capturado vivo, Heylel foi sentenciado pelo Conselho ao Gilgul e à morte. Diante do Conselho, ele fez um último discurso desafiador mesmo assim pesaroso, falando de suas tristezas, de seu orgulho, do desespero e do desprezo pelo Conselho. Os Avatares gêmeos de Heylel foram daí arrebatados de seu corpo e misticamente destroçados enquanto o próprio corpo era consumido pelo corpo e pelo gelo até virar pó, e depois espalho nos ventos do Horizonte.

Os quatro sobreviventes dos nove também se espalharam. Eloine, os Verbena, ficou inconsolada; Heylel tinha sido seu amante e o pai de seus filhos. Ela abandonou o Conselho e morreu num cárcere de um caçador-de-bruxas cinqüenta anos mais tarde. A gentil Bernadette, a irmã Celestial que nunca falava a não ser em canções, fugiu para o Horizonte em meio a rumores de conflito com os Inquisidores; sua canção-da-morte foi entregue aos nossos arquivos recentemente. Falcão Peregrino, um xamã Sêneca que viajou através do Atlântico para se juntar a nós, retornou ao seu povo, presumivelmente para alertá-los de nossa existência. Se esse aviso fosse ouvido, a história poderia ter sido diferente. Akrites, a quem alguns chamaram de herói e outros de covarde, se exilou depois que o julgamento foi concluído.

Alguns dizem que ele havia previsto o futuro e não fez nada para evitá-lo, e o amaldiçoaram pela falha da missão. Sua culpa deve ter sido um fardo enorme porque, como descobri mais tarde, a história era verdade. A Tradição do Traidor, os Solificati alquímicos, desabou logo depois que o mesmo acontecera com seu escolhido. Alguns se uniram aos Artífices Tecnocráticos enquanto que outros viraram Errantes ou se uniram ao Ofício misterioso chamado de Filhos do Conhecimento. Em menos de dois anos completos, sua cadeira estava vazia. Permanecendo assim até 1905, quando os Filhos do Éter desertaram da Tecnocracia. Nessa época, o último da Cabala já tinha morrido há muito tempo.

Na superfície, sua história é um fracasso deprimente; certamente pareceu assim na época. Apenas uma avaliação das ações dos sobreviventes após sua deserção mostra a profundidade de seu compromisso. A irmã Bernadette cuidou da Europa enferma e sofredora por vários períodos de ida depois daquilo; ela aparece aqui e também na cultura do Coro, e não morreu até 1723. Eloine ajudou os refugiados da loucura da caça-às-bruxas que varreu a Europa, suas Artes foram renegadas mas seu respeito pela vida não se apagou. Ela só foi capturada quando sua idade a reduziu a uma presa fácil e ela morreu desafiadora, com sua fé restaurada. Falcão Peregrino, lamentavelmente, morreu logo depois de fazer sua Oração preservada aqui. Embora muitos de seu povo lembrem dele como um histérico nos últimos dias, suas palavras ainda conquistaram muito respeito entre as tribos e podem ter estabelecido os fundamentos da Confederação Iroquois. Akrites, mesmo em seu exílio, montou uma enorme biblioteca, que ele deixou de herança para Doissetep quando finalmente morreu. Apesar da tragédia que destruiu sua sociedade, os sobreviventes da Primeira Cabala carregaram o espírito que os levaram ao Conselho por muito tempo após terem separado seus caminhos.

local original: The Fragile Path - Testments from the first Cabal
nome original: desconhecido
autor(es): desconhecido
tradutor(es): Dr. Orlando

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