O despertar: Justin Keppler


Aviso: Mago: A Ascensão é um jogo. É um jogo sobre temas maduros e questões complexas. O material à seguir tem relação com este jogo. Como tal, ele não requer apenas imaginação, mas também bom senso. O bom senso diz que as palavras de um jogo imaginário não são reais. O bom senso diz que as pessoas não devem tentar realizar "feitiços mágicos" baseadas em uma criação totalmente derivada da imaginação de outra pessoa. O bom senso diz que você não deve tentar desvendar agentes do sobrenatural com inspiração em uma obra completamente fictícia. O bom senso diz que jogos são apenas para se divertir e quando eles acabam, é hora de colocá-los de lado.
Se você perceber que está distante do bom senso, desligue seu computador, afaste-se calmamente e procure ajuda profissional.
Para o restante de vocês, aproveitem as irrestritas possibilidades de sua imaginação.


Eu juro que eu conseguia sentir o toque daquelas agulhas antes de mesmo dela entrar na sala. O medo se agarrava a mim como uma teia de giletes, cortando minha auto estima e fazendo minha mente percorrer todos os cantos mais tenebrosos da minha imaginação. Ainda acho incrível como podemos imaginar coisas tão surreais quando estamos de frente ao desconhecido, coisas nos cantos dos olhos e diversos produtos da falta de certeza. Como será que eu tinha chegado a esse ponto? em toda minha vida eu nunca deixaria me levar por algo tão arriscado. A cadeira de tatuagens cheirava a couro antigo, marcas de tintas e tons amarronzados me lembravam do banco da minha primeira moto, o que não era algo reconfortante pois o acidente ainda doía nos pinos que eu tinha no joelho. A sala estava escura e as pinturas pareciam todas olhar para mim e rir da forma com que meu corpo franzino e desnudo se mexia procurando uma posição em que parecesse mais forte. Ela chega sentando sobre a parte detrás de meus joelhos, seu peso faz meus ossos estalarem e sua mão fria apoiando na base das minhas costas manda um descarga elétrica por minha coluna que eriça todos os pelos de meu corpo, eu juro que senti a pele da minha nuca tremer.

Um único beijo na lateral de meu pescoço e o hálito quente falando ao meu ouvido "Pronto para voar macaco espacial?" sem pensar duas vezes eu lembro de Tyller Durtin e a irônica analogia pela qual minha vida poderia ser o filme...

...
Eu estou frustrado, pela terceira vez não consegui a reunião com a curadora da galeria ônix no seventh district, sinto que todo o mundo parecia conspirar para impedir o cumprimento da minha promessa a falecida Marcella. Eu juro que se algum cachorro passasse na minha frente levaria um chute, até mesmo a minha mãe levaria um chute se passasse na minha frente no estado em que estou! Conforme ando as risadas das pessoas a volta parecem afiar a lâmina da decepção e ansiedade(é uma maldita quinta feira e todos parecem chegar para assistir shows nesse lugar). Eu tive que arranjar desculpas para sair de uma reunião para poder cumprir o horário da entrevista e quase bati no taxista para chegar a tempo no trânsito dessa cidade. Mas quem liga, sou apenas um mero mortal e ela, com todo seu status e dinheiro, têm "Imprevistos urgentes" que quando comparados com a terceira vez consecutiva da remarcação da mostra ainda sim são mais urgentes que a minha vida! Carregar a pasta de amostras estava me cansando, o bar parece um bom lugar para esfriar a cabeça. Péssima decisão.

...
Eu acenava com a cabeça respondendo incerto a pergunta conforme as memórias de como havia encontrado Claire naquele bar no seventh district voltavam para me assolar. Ela era bonita, eu estava sozinho e cansado. Quando começamos a conversar e ela comentou que também pintava, logo fiquei interessado. Seu sorriso sobrepujava tanto meu espírito inquieto quanto o receio pela forma com que ela se vestia. Quanto tempo havia passado eu não sei, só me lembro de acordar no escritório pronto para um novo dia de serviço no banco. Ela me ligou (não sei ainda como descobriu meu telefone) a partir daquele segundo encontro minha vida tornou-se o caos. Em casa, no trabalho, havia poucos lugares em que não estava pensando nela e a noite, todas as noites pelo que me lembro, nós conversávamos e pintávamos no meu estúdio. Ela me convidou para vir até a loja dela após a nossa primeira vez. Eu me lembro de estar sem ar, retorcendo-me sobre a prancheta conforme meu corpo era tomado por um fluxo de toques, palavras e sensações, nunca tinha experimentado nada igual aquilo, devo ter feito uma dezena de pinturas só com o pico de inspiração que senti pelo resto da semana. Em compensação o meu trabalho foi pelo ralo conforme minha mente divagava com a eloqüência das palavras e a intensidade das lembranças. Devo ter estado a ponto de ser demitido uma vinte vezes só no espaço de um mês.
Depois eu viria a saber que Claire me deixava lembrar do passado de propósito como forma de me pegar desprevenido, mas naquele momento a picada da agulha foi como uma faca me atravessando, quente e pastosa sobre a minha pele a tinta parecia traçar padrões na minha própria alma. As linhas e contornos do desenho me levavam ao desespero conforme a dor se transformava em ansiedade, deus me perdoe mas eu estava gostando... A sala sumiu depois de um tempo e tudo que eu sentia era, pela segunda vez, àquele prazer transcendental. A imagem do suor escorrendo pela minha mão ainda está gravada em mim, eu devia estar tremendo conforme tinha o maior orgasmo da minha vida.

Durante horas eu fiquei preso naquele estado de inconsciência racional. Tudo que eu podia ver era a sala derretendo por entre meus dedos suados e sentir, ou melhor, estranhamente ver, o símbolo sendo feito nas minhas costas. Claire chamava aquele desenho de análise do homem, desconfio que não era o nome verdadeiro, mas todos já o vimos em algum ponto da nossa vida. Um homem adulto dentro dum círculo com duas diferentes posições de braços e pernas. Quando acordei ela era só beijos e abraços, seu rosto frio e misterioso pela primeira vez parecia transparecer felicidade infantil. Suas mãos tinham meu sangue e seus olhos guardavam a minha imagem. Ela pronunciou o que na hora eu não sabia ser o Diksham, o elo entre mentor e aprendiz. "Eu juro, por tudo que considero bom e sagrado, instruir-te, guiar-te e respeitar-te. Nunca hei machucar-te, Nunca hei traí-lo, pois sua confiança é a minha. Isso eu te prometo." E mais uma vez eu a possuí, em cima daquela cadeira com o meu sangue e a tinta nos cobrindo e selando nosso pacto para sempre.

local original: Page of Mirrors
nome original: O despertar: Justin Keppler
autor(es): Kaworu Naguisa
tradutor(es):

 Navegação Rápida