Uma noite de lições: Prefácio


Aviso: Mago: A Ascensão é um jogo. É um jogo sobre temas maduros e questões complexas. O material à seguir tem relação com este jogo. Como tal, ele não requer apenas imaginação, mas também bom senso. O bom senso diz que as palavras de um jogo imaginário não são reais. O bom senso diz que as pessoas não devem tentar realizar "feitiços mágicos" baseadas em uma criação totalmente derivada da imaginação de outra pessoa. O bom senso diz que você não deve tentar desvendar agentes do sobrenatural com inspiração em uma obra completamente fictícia. O bom senso diz que jogos são apenas para se divertir e quando eles acabam, é hora de colocá-los de lado.
Se você perceber que está distante do bom senso, desligue seu computador, afaste-se calmamente e procure ajuda profissional.
Para o restante de vocês, aproveitem as irrestritas possibilidades de sua imaginação.


Definitivamente Justin não estava muito bem. Desde que ele saíra de casa essa manhã um senso de estranheza agarrava-se ao seu calcanhar. As pessoas no banco começavam a olhar de forma estranha para ele toda vez que ele chegava, seus atrasos pareciam condena-lo como um herege ou coisa do tipo e ele sabia que estava sendo julgado a cada dia. Muitos de seus amigos pareciam assustados com a mudança. Ele nunca foi tão vivo, nunca sorrira tanto. Lewis viva lhe perguntando se estava se sentindo bem. Não houveram muitas alegrias desde que Marcella morrera e provavelmente aquele excesso de felicidade parecia alguma forma de lidar com o estresse. Todos achavam que o calmo e pacato Sr. Keppler havia enlouquecido de vez com seu jeito solitário. E como ele poderia negar?

Claire era uma montanha russa por tudo que significava ser humano. Todos os altos e baixos. Nos últimos dois meses ele simplesmente tinha presenciado as maiores dores e êxtases de sua vida, dois extremos que por muitas vezes se misturavam e confundiam-no. Ele não era mais inocente, havia provado um pouco do inferno naquela minúscula lojinha escondida no subúrbio. Sentia ter vendido sua alma ao diabo pois, apesar do "resto" de sua vida ir mal, ele nunca teve tanta inspiração, nunca pintou tão bem em toda sua vida. A genialidade beira a loucura, as antigas palavras faziam-no temer no que estivesse se tornando.

Estranhas luzes, visões a beira da consciência. Ele estava enxergando diferentes auras e o tempo parecia se comprimir em certas horas do dia. Ele estava perdendo a razão, o medo lhe atacava a todas as horas em que não estava com Claire ou de alguma forma fora de seu Eu comum.

Pea estava no balcão se despedindo enquanto arrumava suas coisas. A jovenzinha parecia ter uma relação parecida com a dele próprio com Claire e ele ficava feliz de vê-la quando conseguia chegar cedo do trabalho. Com um aceno ele cumprimenta-a e avança até o estúdio mais ao fundo.

Tintas e canvas se espalhavam por todos os cantos daquele pequeno quarto. O lugar cheirava a incensos variados e era decorado com tapeçarias e diversos quadros de camurça com fotos.

...


Oi, como vamos Justin? A voz de Claire era baixa e possuía um ranhar característico, ela era facilmente abafada por qualquer som um pouco mais alto. Era um cumprimento frio, como sempre. Ela mal movia o rosto de frente da tela conforme terminava de pintar um retrato.

-Bem... Eu acho. Justin senta-se sobre um tapete já familiar pelas noites passadas.

-Aconteceu algo? está abatido hoje.

-É o trabalho. Acho que vou ter que diminuir o ritmo um pouco, as pessoas estão me achando estranho. Recebi um aviso de meu chefe, ele estava explicando que mesmo sendo meu colega não poderia segurar minha situação por muito tempo se eu não "superasse a morte de Marcella". Acho que estão aliviando por pensarem que estou de luto. O final da frase vinha seguido de uma risada cheia de um misto de escárnio e medo.

- Entendo...

A voz de Claire era seca e apática. Momentos se acumulavam sem que nenhum dos dois falasse nada um ao outro. O Pincel continuava seu trabalho de espalhar tinta e dar forma ao desenho, o único som era o ruído molhado e grudento da tinta granulosa se afixando a tela. Isso seria um momento normal se não fosse pela ansiedade de Justin, ele queria alguma proteção, apesar de não admitir, vinha a Claire em busca de uma solução para todos os seus problemas.

-Você não enlouqueceu se é isso que está se perguntando. Os olhos negros e profundos dela viravam a alma dele ao avesso conforme fitavam-no e traziam a tona seus segredos mais profundos. Era perturbador.

-Mas como você explica então? Eu não sei como é possível, mas o que nós estamos fazendo...as coisas que sinto ... Elas simplesmente não fazem sentido. Não sei o que pensar Claire. Só sei que isso não está me fazendo bem.

Claire se ajoelhava a frente de Justin. Seu corpo se reclinava para frente e centímetros separavam um rosto do outro. O cabelo dela, liso e negro caia até um pouco abaixo do queixo melhorando os contornos de seu rosto fino e límpido.

-Justin, você está vivendo, entende? As pessoas pelas quais você passa todos os dias não são mais do que escravos do trabalho. Eles desejam ser você, sentir o que você sente. Procuram suas existências inteiras algo que dê sentido as suas vidas enquanto ignoram e fecham os olhos para as possibilidades. Eles dormem e sonham estar acordados. Querem viver mas tem medo de largar os reinos do sonho.

Conforme falava o hálito leve e quente dela banhava o rosto de justin, ele observava seus lábios dançarem pelas palavras se segurando em seu medo para não avançar sobre eles. O toque dela se apoiando em suas coxas mandava calor por todo o seu ser.

-Claire, isso é bonito mas...

-Pense o que pensar você não pode negar o que viu, pode? Eu sei que não pode dormir sem sentir a coberta dançar sobre sua pele, sei que não pode andar na rua sem se hipnotizar pelas pessoas a sua volta. O relógio não parece nunca estar certo e, apesar de nunca estar no horário sempre sabe que hora de ir e vir. Se isso não é estar acordado o que é? Se o que nós compartilhamos não é certo, voltar a sua vida antiga será a solução?

Ele tremia ao pensar na falta de inspiração e no tédio das tardes em que rezava para a hora da saída chegar mais rápido.

-Então me diga no que está me colocando de uma vez. Eu ainda lembro de sua promessa, não sei que tipo de instrução, mas se vou me arriscar eu quero saber de uma vez qual é a intenção. Meu emprego e tudo que construí em minha vida está em risco.

-Pois bem. Ela sentava sobre os próprios calcanhares e o frio tomava o lugar de onde seu corpo estava anteriormente.

- Vivemos numa pintura, Justin. Uma tela formada pelas nossas impressões e sentimentos. Como gotas de tinta a escorrer pela superfície dessa tela marcamos o caminho que esse quadro vai tomar. A maioria das pessoas simplesmente se deixa levar pelo medo e o receio de arriscar. Eles deixam uma casca endurecer a sua volta e só conseguem ver a cor que há dentro dessa casca. Passam suas vidas todas numa luta para conhecer o outro lado sem perceber que se prendem numa posição estática. Somos pessoas de anseios, todo homem e mulher procura algo que os complete. Temos cores dentro de nós e um potencial para canalizar essas cores. A maioria tem que viver desejando algo que não se permitem ter. Uma mesa nova, uma casa, filhos, família, um emprego melhor, aposentadoria, um novo carro. As pessoas pintam sonhos vãos em busca de se sentirem completas por saberem que lhes falta algo. Esse desejo se torna um obsessão que nos trouxe ao estado em que estamos hoje. Mas o que estou tentando fazer com você é quebrar essa casca, mostrar o mundo que existe fora dela e te deixar voar...

- Mas por que eu? Eu me encaixo muito bem no quadro dos que se preocupam com famílias e empregos.

- Por que você têm potencial. Você é um artista, alguém que sabe deixar o mundo para trás e se concentrar no que existe além dele. Nós somos uma legião. Sonhadores, poetas, artistas e sacerdotes. Cada um de nós bem ou mal entrou em contato com o que há além da pintura, cada um de nós consegue captar um pouco da luz que existe fora da casca. Desde o início dos tempos o homem carrega consigo o dom da criação, olhamos o mundo a nossa volta e, penetrando em seu imago desenvolvemos a cultura. O teatro, as lendas, arte, todas são a manifestação do que é ser humano. Ser humano é ter o poder de entrar em contato com a inspiração, o poder bruto de materializar sonhos, essa inspiração é o que existe por baixo das escamas do dragão, dentro da menor partícula de matéria. Você não consegue sentir?

Apesar de tudo parecer fantasioso ele sentia que existia verdade naquelas palavras. Desde que aquilo tudo havia começado nunca conseguiu pintar tanto. Havia arriscado até mesmo escrever alguns textos sobre o que estava passando. A cada gozo ele tocava os céus e o mundo parecia se derreter.

- Eu não sou a única, nem eu nem você estamos sozinhos nessa descoberta, como eu disse, nós existimos desde que os primeiros homens desenhavam nas cavernas. Os primeiros de nós descobriram o poder da inspiração com os primeiros rituais. O sentimento de além mundo que percorre o corpo no momento do êxtase, a força por trás das emoções e sensações. Era aí que a inspiração vivia, e nós não temos medo de ir onde for preciso. Dor, ódio, Amor, alegria, luxúria... Nada é realmente proibido se faz parte da criação.

Claire então se sentou no colo de Justin, ele se excita com um mero beijo dela em seu pescoço. As mãos cheias de tinta tocavam a lateral de seu rosto e uma unha, grande negra e afiada corta-lhe a face fazendo sangrar. A dor espalhasse fazendo-o sentir uma corrente elétrica cortar por toda sua pele. Um beijo faz com que ele seinta cheiro absinto e a língua dela como fogo. O tempo pára e se expande novamente conforme ele sente ela tocar a tatuagem e liberar uma dor sem precedentes. Seus dentes rangem conforme ele joga seu rosto para trás.

--Justin, existe um pulso nessa vida, um pulso que vêm do coração da criação. Essa energia treme por baixo de nossos ossos, ela flui como magma sob o solo. Cada átomo é mantido coeso pelo fluir dessa força. As sensações são essa força queimando, a consciência é como uma cortina de fumaça formada por sonhos queimando. Para você entender você deve superar os seus sentidos. Sentir o lakashim. Quando você alcança o pulso da criação a pintura a sua volta derrete e as tintas escorrem ao seu comando. Nós, eu e você, temos um laço. Eu prometi e moldei numa corrente o desejo de lhe ensinar e mostrar seu potencial.

Justin se contorcia, ele havia aprendido a apreciar a dor nas mãos de Claire. Eles tinham um elo de confiança. Ela o protegeria de qualquer mal e por isso ele poderia mergulhar e deixar-se consumir pelas sensações. A tatuagem doía como ferro quente, ele podia jurar que sua pele escorria e uma sensação de mortalidade percorria sua alma. Num espaço de pequena eternidade ele perdeu seus sentidos e entrou em transe. Seus olhos não viam Claire mais que um vulto esbranquiçado formado por milhares de centenas de partículas luminosas. Suas mãos brilhavam e tudo a sua volta parecia vibrar com o poder que emanava dele. Vibrações percorriam todos os seu sentidos. A sala expandia e contraia no batimento de seu coração e seu corpo se eletrificava com as milhares de cargas elétricas que seus nervos produziam. Ele via o lakashim. De tempos em tempos a sala toda brilhava como numa explosão nuclear e enquanto a luz branca ofuscante diminuía ele sabia que o tempo parava. Esse estado durou dias ou anos, ele não saberia dizer. Mas quando acabou Claire estava novamente a beija-lo com seus lábios de absinto.

- O que você sentiu foi o que nós chamamos de ananda. O contato com a verdadeira criação. Quando o eu e o outro somem e dão lugar ao esplendor da inspiração pura e bruta. Quando estamos no ananda somos um com todo o tempo e criação. Pintamos lugares que não vimos e escrevemos sobre pessoas que não conhecemos. Você tem potencial e é herdeiro da magia dos antigos artistas e sacerdotes. Eu amo você Justin e por isso quero poder guia-lo até o centro da criação onde vai poder encontrar você mesmo. Somos um Culto... um culto ao prazer de estar vivo. Amamos a criação e pintamos com ela com a inspiração que nos é herança. Bem vindo ao Culto do Êxtase e ao primeiro dia de sua nova vida. Esqueça seus problemas antigos, eles não são mais nada que uma ancora para suas novas asas. Venha morar comigo, nós vamos achar outro jeito de você ganhar dinheiro.

-Claire.... os olhos dele se fechavam em cansaço, o pulso passava por seu corpo como água.

- Não lute contra, apenas sinta...se deixe cair.... Ela beijava a testa dele conforme deitava-o com seus cabelos loiros e olhos azuis em seu colo. A cultista sentia-se feliz por finalmente poder começar o treinamento. Já fazia muito tempo desde que Annabelle, sua ultima aprendiz, havia deixado-a.

local original: Page of Mirrors
nome original: Uma noite de lições: Prefácio
autor(es): Kaworu Naguisa
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