Uma noite de lições: Maya


Aviso: Mago: A Ascensão é um jogo. É um jogo sobre temas maduros e questões complexas. O material à seguir tem relação com este jogo. Como tal, ele não requer apenas imaginação, mas também bom senso. O bom senso diz que as palavras de um jogo imaginário não são reais. O bom senso diz que as pessoas não devem tentar realizar "feitiços mágicos" baseadas em uma criação totalmente derivada da imaginação de outra pessoa. O bom senso diz que você não deve tentar desvendar agentes do sobrenatural com inspiração em uma obra completamente fictícia. O bom senso diz que jogos são apenas para se divertir e quando eles acabam, é hora de colocá-los de lado.
Se você perceber que está distante do bom senso, desligue seu computador, afaste-se calmamente e procure ajuda profissional.
Para o restante de vocês, aproveitem as irrestritas possibilidades de sua imaginação.


- Justin...

Seus olhos ainda doíam quando ele fitou a forma esguia de Claire. Era como se ele tivesse observado um holofote aceso. Toda a sua cabeça queimava e doía como se tivesse sido atropelado por um caminhão. A voz de sua... Ele não sabia mais o que Claire representava, mas conhecia aquele tom. Ela queria lhe ensinar algo. Desde que ele soube o quão bem ela pintava, passou horas a fio tentando aprender suas técnicas, nunca fora bem sucedido, agora entendia bem o porque. Aquela forma de tocar seu rosto, o tom de voz maternal. Todos aqueles sinais eram mais do que familiares.

Sentado-se ele tenta se recompor do que acabara de passar e respondia com um sorriso morno e suspenso pela dor e cansaço.

- Antes de prosseguirmos é preciso que você entenda uma coisa simples. Os olhos dela novamente liam sua alma e os segundos de silêncio extremamente bem posicionados pareciam uma eternidade de duvidas em seu coração conforme esperava: A verdade é apenas mais uma ilusão. Sei que pode parecer estranho, mas você deve abrir sua mente e entender essa premissa.

Justin apenas arqueava suas sobrancelhas sem realmente encontrar profundidade alguma no que era dito.

- Entenda. Todos temos opiniões diferentes sobre as mesmas coisas. Qualquer coisa está aberta a contestação nessa realidade. Antes de procurar entender o que eu pretendo te ensinar, você deve ter consciência do estado transitório do nosso mundo.

- A maioria das pessoas se deixa levar por suas noções preconcebidas, suas pequenas cobertas quentes formam uma carapaça que impede que vejam aquilo que não estão prontas para admitir. Muitas vezes essa carapaça nos ajuda a lidar com a vida, sem nenhuma noção seríamos incapazes de cumprir mesmo a tarefa mais simples. Sem acreditar que misturar tintas gera novas cores nunca poderíamos pintar um quadro. O problema reside no fato que, por medo do desconhecido, muitos se prendem aos conceitos como uma realidade.

- O mundo é redondo, existe um deus olhando por nós, um homem não pode voar e mulheres precisam casar virgens. É incrível como em menos de alguns poucos segundos passamos por um processo de análise que taxa uma ou outra dessas afirmações como certa ou errada. Estamos sempre muito prontos a julgar alguma coisa, muitas vezes fazemos isso sem nem mesmo experimentar a ação em si. Deixamos o preconceito viver a vida por nós mesmos.

- A natureza do universo, porém, é um pouco mais sutil. O mundo nunca se revela completamente aos nossos sentidos. Cada pessoa só pode olhar uma parte delimitada do todo e sua interpretação, apesar de real, nunca pode ser considerada uma verdade absoluta. As experiências são únicas e individuais. Quando você era uma criança não compreendia muitos conceitos que só vieram com a maturidade e, ao apreciar algo, uma pessoa não pode realmente afirmar a beleza absoluta contida no objeto. A consciência humana é, como podemos ver pela opinião e gostos, uma força dinâmica. Duas pessoas nunca vêem um fato da mesma forma, e nenhuma das duas pode afirmar estar certa. Cada homem têm um mundo dentro de si e esses mundos nunca são iguais. A subjetividade das percepções é um tema básico na filosofia e os antigos chamavam esse mundo que enxergamos conscientemente de Maya. A ilusão do viver.

- Em maya as pessoas vivem presas as próprias ilusões e medos. A força de suas crenças prende-as como correntes e, ainda sim, dão força para que possamos voar. Posições sociais, tabus, valores, morais e modelos são no máximo efêmeros. A maioria das pessoas comuns que já teve alguma crise existencial consegue remeter a essa verdade fundamental. A sensação de erro quando algum desastre acontece normalmente mostra que nem todas as concepções são seguras. Para ser livre é necessário se Harmonizar com o mundo de Ilusões e, principalmente, lembrar que as ilusões, apesar de transitórias, são tudo que nós temos.

- A alienação é o estado perpétuo do homem conforme ele tenta viver sua vida. Mesmo os que procuram a vida pura e livre de qualquer distração acabam se cegando em sua busca. Não existe escapatória dessa roda de desejos pois ela é inerente a vida. Não há como transcender Maya em abstinência pois o desejo de transcender é uma ilusão. A solução está em compreender a natureza das ilusões e mergulhar nelas conscientemente. Quando você se torna um com o mundo a recíproca é verdadeira. Apenas mergulhando nas águas da realidade podemos entender o que existe do outro lado.

Justin havia se interessado um pouco mais na conversa. Ele gostava um pouco de filosofia, mas sempre achou que era uma perda de tempo. Ninguém pode mudar o mundo, entende-lo em minúcias nem sempre é conveniente. Claire estava sendo bastante clara no que queria expressar, principalmente por que ele já ouvira aquelas mesmas mensagens em diversas outras palavras. Não ao materialismo, ser sem preconceitos, é errado julgar,... Um sentimento de desdém acompanhava sua análise conforme ele se sentia superior a tudo aquilo.

Ela olhava no fundo dos olhos dele e alguns segundos bem colocados deixaram que as palavras realmente fizessem efeito. Justin sabia que, de alguma forma, ela sabia o que ele sentia, como ela sempre soube. Esse conhecimento fez com que ele se envergonhasse. Do que adiantava entender e conhecer um conceito se você não agia sobre esse conhecimento. Ele estava sendo prepotente, se escondendo debaixo da sua coberta para não enxergar que estava, ele mesmo, errado. Justin estava com medo....um medo irracional que se agarrava ao seu coração conforme sentia que talvez estivesse tudo errado. Tudo que ele fez, tudo que sua vida havia sido até o momento...

- Maya... Ele falava em sussurros com os olhos baixos... Acho que entendo, agora...

- Não é um julgamento Justin. Estou aqui para ensinar. Apenas mantenha isso em mente durante o tempo que passarmos juntos, mantenha a mente aberta a viagem só vai piorar...

local original: Page of Mirrors
nome original: Uma noite de lições: Maya
autor(es): Kaworu Naguisa
tradutor(es):

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