Uma noite de lições: Epílogo


Aviso: Mago: A Ascensão é um jogo. É um jogo sobre temas maduros e questões complexas. O material à seguir tem relação com este jogo. Como tal, ele não requer apenas imaginação, mas também bom senso. O bom senso diz que as palavras de um jogo imaginário não são reais. O bom senso diz que as pessoas não devem tentar realizar "feitiços mágicos" baseadas em uma criação totalmente derivada da imaginação de outra pessoa. O bom senso diz que você não deve tentar desvendar agentes do sobrenatural com inspiração em uma obra completamente fictícia. O bom senso diz que jogos são apenas para se divertir e quando eles acabam, é hora de colocá-los de lado.
Se você perceber que está distante do bom senso, desligue seu computador, afaste-se calmamente e procure ajuda profissional.
Para o restante de vocês, aproveitem as irrestritas possibilidades de sua imaginação.


- Justin, porque você aceitou continuar comigo mesmo que sem saber o que tenho a oferecer?

- Não sei Claire. Apenas estou curioso...

O relógio já batia meia noite dentro daquela pequena loja. Desde que chegara Justin estava sentindo-se tomado por lembranças e sensações como a beira da morte. A cada poucos minutos ele via sua vida passar pelos seus olhos. As palavras de Claire, mesmo não fazendo muito sentido algumas vezes, pareciam realmente uma oferta tentadora.

- Curioso com o que?

- Não sei bem te explicar Claire. Tudo que você tem me dito faz sentido. Muita coisa não é nova mas parece tomar uma perspectiva mais forte quando você fala.

Justin ficava em silêncio durante um tempo pensando no que falar conforme seus sentimentos subiam a garganta e formavam um nó que não lhe deixava transportar em palavras aquilo que queria expressar. Claire tragava novamente e soltava uma coluna de fumaça que bailava até o teto. Lia a alma de Justin novamente com uma compleição atenta. Por segundos fechava os olhos assustando-o.

- Só isso? Eu não sei, pelo que vejo seus motivos vão além. Posso sentir.

Ele deixava de lutar contra a idéia de que ela podia ler ou sentir o que quer que ele estivesse pensando. Era assustadoramente... normal. Sua própria reação ao que ela fazia assustava pois sempre que pensava na possibilidade de revirarem todos os seus segredos era tomado por pânico. Segredos não deveriam ser vistos, ao menos era o que ele acreditava até então. Ela saber o que ele sentia era uma espécie de liberdade. Pela primeira vez podia ser verdadeiramente sincero. Sincero além de suas próprias limitações.

- Sabe, acho que você fez algo em mim. Os últimos dias, como você disse, têm sido um adorável inferno. Eu estou vendo minha vida deslizar e desmoronar, mas em compensação nunca fui tão feliz. O Sexo é incrível, nunca estive tão inspirado e a cada dia pareço estar preso de alguma espécie de ilusão. É como se estivesse permanentemente drogado... Hoje quando estava vendo tv simplesmente consegui ver as imagens como um show de luzes e eletricidade circulando numa dança perfeita. Achei que estava drogado, que você tinha colocado algo na minha bebida, mas a coisa estava ficando freqüente demais para ser isso.

- Você quer uma resposta, não é?

- Mais que isso, Claire. Você me mudou, não sei, acho que pra melhor. Eu não quero parar, não quero perder isso nem voltar a ser o que eu era antes. Eu quero entender e, mais que isso, ir mais fundo. Acho que a nossa conversa me fez perder o medo que eu tinha da mudança. Quando cheguei estava pensando em não me render a um hedonismo, eu sempre fui responsável e continuaria sendo. Não esperava que o buraco onde nos enfiamos fosse tão fundo. Mas pelo que estou vendo a coisa é séria. Têm toda uma filosofia.

- Sabe, eu tinha medo que você "não se rendesse". Estou bem feliz de ouvir isso. Eu estava lhe contando sobre Maya pois precisava abrir caminho para que não me julgasse alguma louca ou qualquer tipo de fanática. A coisa não se trata de mero prazer, nem mesmo de religião. O que eu te ofereço é uma vida nova. Mas pra isso a sua vida velha vai ter que ficar pra trás...

- Eu sei, estou disposto a arriscar. Tudo que tenho a perder é um emprego medíocre e um mar de pesar e insegurança. Agente só vive uma vez, não é o que dizem?

- É. Claire parava um pouco pensativa como se as palavras remetessem a um passado distante. Sacudindo a cabeça e soltando mais fumaça ela volta a fitar Justin.

- Bem Justin. Como eu te disse tudo se trata sobre viver. O que você deve tentar entender é que Maya não se concentra apenas no que as pessoas pensam e seus pontos de vista. O conceito de ilusão vai muito além de mera filosofia, ele é real como uma caneta é real. Tudo que você toca ou o que você bebe, até mesmo a sua carne é parte de uma grande ilusão sensorial. Todos compartilhamos essa visão, bem ou mal, mas o que vemos, pelo menos o que a maioria de nós, humanos, vêem é um grão de areia num universo titânico de possibilidades.

Justin tentava manter a mente aberta mas Claire conseguia ver uma pontada de dúvida raiar na aura dele. As cores tremulavam incertas e de forma mais lenta como num conflito interno.

Claire soava convicta enquanto Justin batalhava contra o sentimento de estranheza. Ele tentava se lembrar de como ficara tomado pelo caos no momento de seu orgasmo. De como a sala se contorceu numa enorme explosão e em como tinha visto tudo diferente. De como ele via luzes e energias.

- Bem, vejo que você precisa de um tempo pra digerir tudo isso. Apenas ouça e vamos dar tempo ao tempo, certo?

- Certo... a voz dele estava entorpecida pela sua batalha interna contra a descrença, ele queria acreditar mas ainda existia a dúvida conforme sentia que tudo poderia ser apenas loucura.

- Justin, o mundo é uma ilusão, e eu digo isso fisicamente, ele realmente é um jogo de espelhos. Nós andamos por esse jogo cegos ao verdadeiro poder que está contido dentro de nós. Toda existência tem um pulso sagrado. Ele atravessa o universo em mudança constante. Desde o grande big bang, desde o momento em que o tempo se criou em uma grande explosão, essa liberação de energia se repete dentro do menor átomo. Todos nos conectamos a essa teia de energia ressonante conforme vivemos. Esse pulso é o que chamamos de Lakashim e foi o que você sentiu. O lakashim é a inspiração divina, o sopro de Alah as Runas de Odin. É o elo entre o Criador e criação surgido quando primeiro nasceu Chronos. É o sentimento de acima do mundo, de além vida que nos toma em cada vez que a barreira dos nossos sentidos cai.

- Assim como você não admitia gostar da dor as pessoas não admitem esse poder dentro delas. Apesar de viverem cercadas por ele, pela dança milagrosa que é cada célula, cada complexa formação de átomos e a pura felicidade do amor elas não se deixam levar pelo instinto devido ao medo. A consciência só é capaz de ver partes restritas do lakashim, ela serve para observar e é construída para a lógica, porém o inconsciente, as sensações e emoções são um fluxo constante de experiências. Assim como o individuo monta um ponto de vista incrustado, caso não seja estimulado corretamente, ele monta uma crosta que o impede de voar. O impede de se conectar ao seu inconsciente e fazer mágika é perdido em vista a um medo de arriscar e uma visão limitada.

- Mágika?

- Sim, Justin, tudo isso é sobre mágika. O que você experimentou é o poder puro e bruto que corre dentro de você. O poder da criação canalizado em cada parte ínfima do seu eu. No nosso mundo científico as pessoas não acreditam em mágika logo se cegam para esse mundo potencial novo que está sob nosso pés. Desde que o mundo é mundo as pessoas procuram pelo além em danças do fogo, rituais, drogas e sexo. E elas estão certas. Existe verdade dentro do inconsciente, ele se liga ao lakashim e é fonte da mais pura inspiração, e criação. Eu sei que a ciência desmistificou a vida e tudo têm uma explicação. Pode parecer loucura, mas eu te asseguro que não é. Eu vou te mostrar, quando você estiver pronto vai ver sobre o que estou falando... Apenas vamos dar tempo ao tempo pra você digerir a questão. Volte pra casa e amanhã continuamos.

- Certo...

local original: Page of Mirrors
nome original: Uma noite de lições: Epílogo
autor(es): Kaworu Naguisa
tradutor(es):

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