Ser um Cultista


Aviso: Mago: A Ascensão é um jogo. É um jogo sobre temas maduros e questões complexas. O material à seguir tem relação com este jogo. Como tal, ele não requer apenas imaginação, mas também bom senso. O bom senso diz que as palavras de um jogo imaginário não são reais. O bom senso diz que as pessoas não devem tentar realizar "feitiços mágicos" baseadas em uma criação totalmente derivada da imaginação de outra pessoa. O bom senso diz que você não deve tentar desvendar agentes do sobrenatural com inspiração em uma obra completamente fictícia. O bom senso diz que jogos são apenas para se divertir e quando eles acabam, é hora de colocá-los de lado.
Se você perceber que está distante do bom senso, desligue seu computador, afaste-se calmamente e procure ajuda profissional.
Para o restante de vocês, aproveitem as irrestritas possibilidades de sua imaginação.


Existe um mundo dentro do mundo. Um lugar onde você pode ser deus e brincar de criar e destruir. Existe um mundo que apenas os que sonham podem alcançar, um mundo de máscaras e poesia. Um lugar no qual seu toque é o hálito dos deuses e universos são criados a um simples desejo. Esse mundo está a sua disposição a cada segundo de sua vida. A consciência é apenas um estado transitório, uma ilusão criada pelos limites de sua imaginação. Vá além, o mundo é o conjunto de todas as possibilidades num balé cósmico de amor. Tudo faz parte da grande dança do lakashim, tudo faz parte do grande fluxo da vida, todos os valores transitórios. Você já olhou para o seu corpo, as centenas de milhares de células todas dançando a vida e a morte num milagre cotidiano quase impossível? Já olhou para o céu, nuvens maiores que montanhas flutuando como cubos de gelo no grande oceano celeste?

O universo em que existimos é um milagre que é lançado aos nossos sentidos e muitas vezes é ignorado. Os padrões estáticos que nos prendem formam vendas para a verdade exterior. Qual de nós nunca sentiu o poder de uma paixão, a força arrebatadora de uma música, a adrenalina de ver sua vida por um fio, o magnetismo da sensualidade e a força bruta de criação do momento de êxtase. Concepções abstratas e tabulações limitam o alcance do indivíduo, nascemos livres e temos nossas asas cortadas a cada dia. "É impossível! Você está errado! Isso não deve ser assim!". Aos poucos tomamos medo de falar com o mundo. Deixamos de amar a criação e sentimo-nos com medo de aproveitar as nossas próprias existências. E o medo, como o amor, é uma emoção forte.

Por que confiar num relógio quando simplesmente sabemos que o tempo não é linear. Por que nos prendermos a um ritmo artificial quando conseguimos sentir o dia passar rápido quando estamos aproveitando-no. Por que confiar em verdades que nos foram impostas sem darmos nome ao que realmente sentimos? O mundo deve ser amado, e no amor, ele se revela para o individuo. Cada momento é um milagre equivalente ao segundo em que toda criação veio a ser. A força da liberdade é primordial ao homem, e desde as cavernas nós contamos histórias, pintamos paredes, caçamos por prazer e cortamos nossos corpos em rituais de passagem.

O homem nunca vai abandonar completamente sua individualidade e, na exploração dos nossos prazeres, encontramos a verdade do que é fazer parte da grande dança cósmica formada pela vida e morte na telluriam.

Annabelle corria por entre aqueles jovens, ela pulava e girava alto ao lado da fogueira erguida no centro do gramado. Seus cabelos negros se misturavam entre mechas e tranças conforme ondulavam em correntes da mais pura liberdade. Ela estava com os olhos entreabertos, imagens iam e vinham ao acaso conforme ela abria e fechava-os instintivamente. Havia momentos onde o calor do fogo consumia sua alma, em outras o frio do luar limpava seu corpo. Cada salto parecia maior que o último, ela conseguia ouvir os tambores de tribos distantes enquanto evocava o poder da dança ancestral. O fogo era a energia pura da criação e destruição, Shiva e Shakti em sua dança universal e todos eles, bailando a volta do vortex primordial. comungavam no balé universal. Até hoje ela se impressionava como o tempo diminuía a cada novo salto. Ela corria, flexionava seu corpo e parecia voar metros, voar horas antes de cair novamente no chão. Seus pés doíam um pouco e seu corpo já estava tonto e cansado, mas era esse cansaço que lhe dava a certeza de estar fazendo fluir a energia daquele local. Durante aquele pequeno espaço de uma eternidade, porque ninguém nunca poderia saber o quanto havia passado entre um passo e outro, Anna conseguia ver a chama da vida brilhar alto no peito de cada um. Era uma tocha brilhante e vigorosa que exalava da mente e dos corpos se juntando a fogueira e subindo aos céus numa miríade de cores. Com a fumaça de seu cigarro a cultista circulava e canalizava toda aquela força procurando afetar o maior número de pessoas. Ela mandava uma onda de sensações e inspiração procurando compartilhar o mundo que estava sendo criado.

A arte do culto está no indefinível. Por mais que alguns magos procurem teorias e fórmulas para definir e construir suas técnicas, o culto continua buscando entender o universo com os caminhos sem palavras. O lakashim, ou pulsação do Mundo, é o nome da força com a qual o culto procura se unir. Essa força é a dança universal da criação na qual cada um procura seu lugar. O lakashim não pode ser teorizado, ele é simplesmente sentido. Quando você vê o tempo se dilatar no alge do prazer, quando você sente seus sentidos tombarem ou fica preso a admirar a beleza, aí você encontra o lakashim. Como a batida de uma música essa pulsação toma conta do cultista a cada segundo que ele se abre para realmente viver. O estado de êxtase, o momento quando as pessoas largam suas concepções para trás e se embalam na fantasia do momento, é conhecido pelo culto como ananda. Os cultistas, ao despertarem, encontram-se sufocados pelo estado de ananda. Cada passo é prazeiroso e eles sentem o mundo na ponta de seus dedos conforme largam as percepções mundanas e embarcam numa viagem que demonstra o milagre de cada momento. Ser um cultista é procurar se libertar dos limites, viver a vida e tocar além do que seus dedos alcançam. Muitos magos da tradição procuram em antigas práticas ou rituais, como o jejum, a escarificação, a dança do fogo, o Tantra e diversos ordálios, formas de ultrapassar os limites impostos. A arte do culto reflete o poder e a beleza de coisas como as provações de rituais de passagem e prazeres de estar vivo. Culturas antigas procuravam esse poder a todo o momento. Sacerdotes dançavam sobre chamas enquanto guerreiros provavam sua força, o poder do Lakashim estava presente conforme as festas de fertilidade traziam novas safras e religiosos se prendiam à arvores procurando o poder das runas. Para bem ou para mal o culto procura no corpo e na alma as sensações que elevam o homem à deus e por usarem a ferramenta que nasceu junto de todo indivíduo podem ser considerados membros de uma das mais antigas tradições por que, antes da natureza ou do mundo que está além, o homem procurou respostas dentro de si e no que simplesmente sentia.

Cada salto parecia se dilatar ao ponto que a maga começava a sentir-se tomando o ar. O som da música e seus batimentos se apressavam. Ela sentia que ia desmaiar, a força daquela multidão era imensa, mas ela precisava agüentar um pouco mais. Os garotos que a acompanhavam procuravam alívio da vida cotidiana e, naquele suave toque de mágika, a Cultista proporcionava um pedaço do céu para eles. A festa não tinha hora nem lugar, as pessoas antigas que cada um deles carregavam foram largadas em casa conforme o desejo suprimido que existia em todos eles procurava se revelar. Era uma honra poder conduzir tantos a um encontro com o lakashim. Os movimentos formavam uma grande mandala cujo poder superava o indivíduo e movia os céus. Era uma vibração restauradora. Deveria ser a terceira vez que Anna podia se lembrar de ter acumulado tanta energia. Finalmente estava conseguindo estabelecer seu lugar na cidade e, com a casa cheia, começava a prever quantas daquelas pessoas poderiam finalmente compartilhar de sua vida. Seu trabalho estava a dar frutos o que era bom e ruim ao mesmo tempo. Ela não queria deixar a cidade. Mas o chamado logo viria.

Todos os cultistas prezam a sua liberdade. O lakashim também é sobre ser livre, as barreiras devem ser quebradas para se alcançar o estado de graça onde você e a criação são um só. Grande parte da tradição é formada por grupos que viajam procurando conhecer o que podem sobre o mundo, freqüentemente nômades é difícil para um mago como esses permanecer muito tempo no mesmo lugar. Esse chamado à estrada é algo que torna a tradição muito diferente das outras, a maioria desses magos deverá ter uma enorme agenda telefônica conforme passa a conhecer centenas de pessoas, muitas das quais tiveram sua vida afetada diretamente pelo mago em questão. O culto é um grande clube de amigos e na maioria os magos ajudam uns aos outros as estabelecer na cidade pelo tempo em que forem ficar. Muitos Extáticos sentem o chamado à guerra e travam sua frente de batalha se envolvendo no ramo do entretenimento. Festas, shows, bandas e teatro são alguns dos preferidos desses magos, todo cultista têm um campo no qual se especializa, seja arte, dança ou mesmo ser boa companhia, esse campo é a forma com que o individuo toca os adormecidos e dá um pouco do gosto de liberdade. Um cultista normalmente não se interporá a vontade de qualquer pessoa, a liberdade é essencial para a tradição, mas muitas vezes esses magos irão abrir os olhos de pessoas com potencial. Muitos Extáticos já foram pessoas muito tímidas e despertaram ao ver sua vida virada de ponta cabeça.

A cada dia a sociedade se torna mais opressiva e a verdadeira mágika do culto está em permitir um momento de sonho para as pessoas. Grandes rituais onde o êxtase compartilhado é o alvo são projetados, desses rituais todo cultista conhece algum. Compartilhar é a palavra chave da tradição e de nada adianta uma boa estrada se não houver companhia para trilha-la ou alguém para escutar as histórias.

Conforme descansava suas asas Anna aterrissava de novo voltando a um fluxo de tempo mais passivo. De olhos fechados a menina já abraçava Melissa que se interpunha no seu caminho. Havia horas que Anna revivia esse momento e, sem saber se era apenas presente ou uma visão do futuro, ela fazia o que treinara em todas as vezes que vivera a cena. Um beijo leve e o peso de seu corpo derrubava-as contra o gramado onde ela, virando de costas e rindo passava a mão nos cabelos de sua nova companhia. Melissa era uma verbena que havia conhecido fazia alguns dias, ela estava passando por uma fase um pouco difícil e a sua companhia ajudava um pouco a esquecer dos problemas. Elas eram boas amigas até então, mas a pequena verbena não conseguia esconder suas intenções sob a lua dessa noite. A cultista por dentro ria da inocência da outra maga, ela já estava preparada para tudo que iria Ouvir.

Melissa sentava torcendo as costas procurando melhorar a dor que sentia pela queda rindo de leve. Ela olhava para os cabelos negros de Anna e sentia seu peito apertar um pouco. A aura dela se marcava no ar e o cheiro de sua indecisão flutuava sobre sua pele. A cultista se deixava banhar pelas sensações conforme retribuía os olhares mantendo uma máscara de ignorância. A dança havia feito seus sentidos se ampliarem até a beira do torpor, todos os pensamentos eram aromas a serem respirados e seu corpo se contraia conforme era tomado pelas centenas de odores diferentes. A noite estava brilhante com a lua e a ressonância da excitação da festa formava uma aurora boreal tangível, o "incêndio Humano" coloriria por horas aquele lugar e mesmo a verbena parecia estar sendo afetada pela mágika posta em ação.

Melissa queria-a essa noite. Finalmente tivera coragem de falar. Com um leve toque no seu rosto a resposta de Anna era um simples "quando a hora chegar". Ela aceitava o convite, mas sabia no fundo do seu coração que a noite ainda tinha mais a oferecer e seria bom, por hora, colocar-se a contemplar a beleza daquela conflagração. Melissa parecia ansiosa, A extática, com um leve beijo na testa soprava para dentro dela todo o prazer que seu fôlego podia instilar. A aura da verbena brilhava forte, incandescente por alguns segundos conforme ela sentia o pulso do lakashim e se conectava ao "tempo subjetivo" em que Annabelle estava. Quando fosse a hora ela saberia, mas por enquanto deveriam simplesmente aproveitar a grama e beber da alegria das pessoas.

Cultistas vivem num mundo muito mais vívido que a maioria dos adormecidos e mesmo que os despertos. Todos os rituais, ou Kammamarga como a tradição se refere a eles, criam no mago um estado de profunda conexão com a criação. Essa conexão não só permite a mágika como normalmente é mantida através de percepções alteradas por horas a fio. Auras, símbolos, sentidos olfativos e táteis, músicas e visões diversas atingem o mago de acordo com seu paradigma e diversos efeitos sensoriais são mantidos de forma perene. A maioria dos cultistas tem um ritual ou prática que os lança em estado estático que usa logo que encontra a oportunidade, esse ritual revela diferentes camadas de realidade que ele mantém em foco e usa como estímulo para realizar mágikas menores. Um caso extremamente especial de sentido mágiko é o tempo que é apreciado pela tradição. Quebrando a continuidade de passado presente e futuro os cultistas normalmente vivem numa mistura dos três. Durante momentos extremamente estimulantes esses magos começam a viver o futuro diversas vezes ou ter flashbacks de dias inteiros, essas acelerações e regressões têm um caráter instável e muitas vezes um segundo no futuro pode ser apreciado por horas e dias em meros minutos de tempo objetivo, Essas idas e vindas são acompanhadas de um relógio biológico extremamente preciso. Apesar de raramente marcar o tempo como a tecnocracia marca, o tempo do culto está ligado diretamente com o mundo conforme um extático simplesmente sabe a hora das coisas. Falas como "você está atrasado" são comuns entre magos da tradição e outras pessoas conforme os cultistas simplesmente entendem o tempo um passo a frente do resto. Muitos cultistas parecem letárgicos ou superativos em determinados momentos e, para que outros entendam o "tempo do mundo" esses magos desenvolvem rotinas para "sincronizar" outros em seu tempo. Uma pessoa sincronizada simplesmente sofre as mesmas alterações de tempo subjetivo e sabe quando o outro deve fazer o que. Encontros e ligações parecem ocorrer por coincidência conforme ambos sabem que a "hora chegou".

Os lençóis rolavam por sobre a cama conforme ambas se abraçavam e beijavam. Melissa conseguia sentir o cheiro leve das balas de menta que Anna usava pra esconder a maresia. O cheiro se impregnava em sua boca a cada beijo e ambas pareciam se tornar uma única pessoa. Era incrível como ela nunca havia sentido nada igual. Ela conhecia alguns dos movimentos que estavam fazendo, parecia com técnicas que ela mesma empregava . A verbena anotava as semelhança enquanto procurava fazer a sua vida dançar entre as duas. Anna sorria por dentro conforme começava a ganhar a confiança de Mel. Beijos, toque, carícias, toda aquela dança aos poucos as elevava a novas alturas de paixão. Conforme abraçava e procurava se perder no corpo da parceira sua alma alcançava alturas inexploradas. O tempo se tornava lento ao ponto dela ver o rosto de Mel voar por entre seus cabelos, cada toque tinha a força de um trovão e conforme sentia-se mais envolta em toda aquela paixão deixava que o fogo de sua alma fosse canalizado vértebra a vértebra por sua coluna em direção a cabeça. Seus olhos eram a visão de uma estrela e sua boca a voz da criação. Seu corpo desaparecia consumido pela dança da criação e a energia de uma supernova atravessava cada ínfima partícula de seu ser, queimando tanto ela quanto Melissa no seu caminho. Enquanto era tomada pelo gozo, tentava recolher seu espírito e, o que era um turbilhão de energia se tornava o tempo do vôo de um folha ao cair da árvore. A energia e o prazer andavam em passos lentos, o universo parecia ficar silencioso enquanto as duas viam o sublime momento do ananda. As vendas caiam e elas contemplavam o poder que existia por trás da ilusão que é o mundo. Annabelle caia exausta com um sorriso no rosto e um fio de saliva de um último beijo. Melissa continuava de olhos abertos fitando o teto conforme sentia todos os seus músculos travados com os ecos do que foi aquele momento de revelação. Ela contemplava a luz cegante do ananda enquanto os estímulos do seu corpo cresciam ao ponto de gritar até alcançar o silêncio.

Todas as tradições acabam por dividir focos em suas práticas, e o culto não é exceção. Muitas das coisas que os cultistas fazem não parecem ter um significado místiko mas a verdade por trás desses magos é que eles só precisam de seu corpo como foco. Quando procurar entender o que um cultista utiliza como caminho para o poder vá atrás do que o estimula. Um extático muitas vezes aparece em lugares inesperados e pode ser confundido com magos de outras práticas. Desde o sacerdote que se enforca na árvore ou cai dormente com o esforço por contínuas orações ao xamã que utiliza peyote como caminho para alcançar os deuses, qualquer coisa que afete os sentidos ou a imaginação do indivíduo é um caminho válido para o ananda. Os extáticos não explicam em palavras as suas revelações por que seu objetivo é ultrapassar os limites do mundo de ilusões em que vivemos, um mundo com palavras inadequadas para explicar o que esta fora da experiência comum.

local original: Page of Mirrors
nome original: Ser um Cultista
autor(es): Kaworu Naguisa
tradutor(es):

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