Ser um Verbena


Aviso: Mago: A Ascensão é um jogo. É um jogo sobre temas maduros e questões complexas. O material à seguir tem relação com este jogo. Como tal, ele não requer apenas imaginação, mas também bom senso. O bom senso diz que as palavras de um jogo imaginário não são reais. O bom senso diz que as pessoas não devem tentar realizar "feitiços mágicos" baseadas em uma criação totalmente derivada da imaginação de outra pessoa. O bom senso diz que você não deve tentar desvendar agentes do sobrenatural com inspiração em uma obra completamente fictícia. O bom senso diz que jogos são apenas para se divertir e quando eles acabam, é hora de colocá-los de lado.
Se você perceber que está distante do bom senso, desligue seu computador, afaste-se calmamente e procure ajuda profissional.
Para o restante de vocês, aproveitem as irrestritas possibilidades de sua imaginação.


As pessoas nascem crescem e morrem. Cada ser segue o mesmo ciclo saindo do pó e se erguendo num arco até retornar as suas raízes. O homem, por mais que evolua e troque de cultura, por mais iluminado ou cheio de conhecimento que seja, sempre será apenas um homem. Um ser com instintos, sentimentos e ligado ao universo à volta por um elo que o persegue desde o início de toda criação.

As pessoas podem procurar felicidade no que possuem, podem procurar objetivos no abstrato, mas mesmo assim as suas existências serão sempre atadas pela carne. O primeiro beijo, o vento batendo no rosto, a excitação de um novo amor e a dor ou o ódio, são as coisas que nos definem. O corpo é o templo de todas as experiências e por bem ou por mal ele é um elemento indivisível do nosso ser. Mesmo que tentemos traçar uma linha entre o físico e o racional ainda sentiremos um se misturando ao outro conforme surgem as emoções e os instintos.

Ser um verbena é enxergar além da armadilha que é a divisão entre corpo e alma. Tudo é corpo e o mundo não é um relógio, mas um organismo onde cada ser é uma parte indivisível do todo. A natureza é a nossa mãe e a nossa origem. Todos seguimos a mesma trilha, Nascemos, crescemos, procriamos e morremos. Todos nos seguramos na grande semente da espécie e tornamos forte a árvore da vida.

Quem nunca sentiu a emoção de uma paixão avassaladora? Quem nunca sentiu o poder do amor e como ele pode se tornar ódio. Quem pode negar o poder que o sangue possui ao ser derramado. Não importa onde, nem quando, todos conseguimos entender muito bem o que significa ver sangue derramado e manchas de ferimentos. Somos ligados primordialmente à natureza a nossa volta, junto de tudo que existe dentro do universo, crescemos e evoluímos partindo da mesma semente e, cada um a seu passo, contém a força da criação dentro de si. Um homem que tome o mundo como mestre será o melhor conhecedor de si mesmo. As estações e os sentimentos têm poder, a natureza possui o seu caminho e conhecer esse caminho, se harmonizar com essa essência fervilhante, é viver na harmonia e equilíbrio para o qual todos nascemos. Saber viver, e entender essa vida é a arte do Verbena, entender o que somos e por que assim somos é a arte que coloca a tradição como primordial.

Melissa olhava para as pessoas à volta da fogueira, ela conseguia sentir o suor e o calor de seus corpos conforme eles passavam girando a sua frente. Era uma dança frenética e descontrolada. Nenhum daqueles garotos conseguia escapar à sensação comum de liberdade. Logo muitos iriam se engravatar e voltar a uma vida castrante de trabalho. Eles eram uma geração criada para desrespeitar os próprios corpos, crescidos em escolas e doutrinados num processo refinado de colocar a mente sobre o corpo muitos deles mal se apercebiam conforme tornavam-se doentes pela divisão. Horas sentadas em frente a um computador, anos de comidas feitas para agradar ao paladar e muito menos sono do que eles precisam havia criado neles a marca pálida e amarelada da sociedade moderna. Era um triste verdade a forma com que a "evolução cultural" terminava por ter criado pessoas mais fracas. Porém era uma esperança o que a maga via acontecer naquela fogueira: Corpos livres, almas livres, sem preconceitos ou limitações eles simplesmente se deixavam levar pela dança. Sem camisas os garotos pareciam perder a vergonha do que anos de inatividade fizeram aos seus corpos, muitas garotas já estavam despidas dentro da roda, todas dançando os passos imemoriais que ressuscitavam a sensualidade que antes mesmo de desenvolver uma língua a raça humana já conhecia. A maioria deles não passavam dos 20, há séculos eles iriam ser considerados homens e mulheres por completo, a maioria já teria realmente vivido para ter suas cicatrizes e estariam completos de corpo e alma. Essa geração talvez não se apercebesse, mas eles possuíam muito medo de se machucar, Apesar de tudo iriam descobrir um dia que a verdadeira vida estava no conflito, todos precisamos de motivação. Aqui era possível ver, nos olhos de cada um estava estampado o desejo por ser completo. Sem se conhecerem eles se tocam na dança, aos poucos realizam o antigo ritual e lentamente perdiam a timidez uns com os outros. Exaustos alguns desfalecem pelo chão agarrando outro copo de bebida, estão felizes por porem a prova a energia da idade.....felizes por não verem anos perdidos para um futuro, eles viviam plenamente.

Um verbena, acima de tudo, conhece a si mesmo. Se livrando da máscara de dualidade e prepotência imposta pela sociedade o magus entende que a vida deve ser vivida. O mundo caminha em direção ao mais fácil, mais rápido e, sem perceber, parece procurar libertar o homem de sua própria natureza. Quando desperta, um membro da tradição logo se confronta com a ligação íntima que todos têm com os ciclos da natureza. Os instintos se revelam e o equilíbrio é uma das coisas a serem contempladas. Dor, alegria, vida, morte a natureza distribui sem medo quantias iguais de todos. Nenhum é intrinsecamente ruim ou bom, e conforme começa a entender os caminhos da natureza o verbena deve seguir seu exemplo não tendo medo de experimentar nenhum desses estados. A sociedade refuta os valores antigos e sem saber refuta a cultura que, acima de qualquer coisa, é originada no homem e numa época em que a harmonia com o mundo era tão importante para a sobrevivência quanto a harmonia com o eu.

Em meio às pessoas que dançavam a Maga reconhece o rosto de Annabelle. Seu corpo era ágil e esbelto, ela conseguia sentir o pulso de seu coração conforme ela girava e espalhava o pequeno rasto de fumaça com seu cigarro. Os olhos de Melissa se enchiam com a beleza com que a cultista vivia. A sua conexão com a deusa, sua conexão com a vida, era forte e vibrante o suficiente para encher-lhe de energia. Melissa desejava-a conforme observava suas manobras. Levantando-se andava e tomava seu lugar na dança. O fogo se refletia tanto como luz sobre seu corpo como calor por sobre sua pele. As chamas refletiam sua paixão momentânea, leve ela deslisava tomando parte no ritual disfarçado que Annabelle havia iniciado. Ambas conheciam o poder da dança do fogo, e foi uma idéia ótima colocar a foqueira em meio a rave. O pulso da mágika estática era contagiante, promessas de prazer que atraiam-na para os braços de Anna conforme as duas se deixavam girar e cair na grama sem sequer uma palavra.

Verbenas e Cultistas, assim como oradores, têm uma longa história comum. A mágika desses grupos é primal e ligada diretamente a o que significa ser humano. Para entender o mundo essas tradições confiam mais no instinto do que em teorias metafísicas complexas. Cada qual procura respostas em elementos comuns a vida de todos nós. Enquanto os verbenas sequem o exemplo da Natureza, ou da deusa como eles a chamam, Cultistas buscam a verdade na indecifrável busca pelo próximo limite. O verbena olha o mundo, observa lentamente o seu ciclo e coloca-o em ação. A dança, a sensualidade, a luta pela sobrevivência, a dor, o prazer e o ciclo da vida compõe alguns dos pilares da tradição. Muito dos conhecimentos nesses pilares podem ser atribuídos a contatos com as culturas irmãs. É comum ao verbena se unir a um cultista ou orador em seu trabalho, o passado comum ajuda no entendimento de tais grupos e também forma uma ponte para amizades duradouras.

Uma das lições mais importantes da tradição está no instinto. Os verbenas são naturalmente instintivos e agem e controlam as forças a sua volta com uma sensibilidade que não fazem questão de transcrever para palavras. O corpo e alma são um só e assim também é a ação de um mago da tradição. Daí surge muito da fama que eles adquiriram por seu ímpeto e paixão em quase tudo que se dedicam. Podem acusar um verbena de ser precipitado ou descuidado, mas nunca de não ter vivido plenamente.

Melissa conseguia sentir sobre si a luz do sol, desde que despertara sempre achava extremamente prazeroso passar pelo menos alguns segundos apreciando certas simplicidades que a maioria prefere esquecer. Cada raio penetrava fundo em sua pele, todos os mínimos poros pareciam sugar a energia que lhe era oferecida. Era comum para ela sentir dentro de si o pulsar daquela energia quente e forte. Era a vida, o prana, o chi, a quintessência elemental, existiam muitos nomes para aquela força que fazia seus ossos tremerem, mas ela gostava de sentir-se dragada dentro dela. Respirar, comer, deixar-se ao sol, tudo parecia alimentar aquilo dentro dela. Era possível sentir o passar das estações e, mesmo que muitas vezes fosse constrangedor, ela sentia suas emoções amplificadas conforme se deixava embalar naquela dança interior, não era incomum ter que se tolher para não explodir em amor ou ódio, mas era um preço pequeno. O lençol cobria pouco de seu corpo e ela ainda sentia a respiração lenta de Annabelle em seu pescoço. Cada sopro vinha carregado do cheiro da pele da menina, do ar de menta que parecia envolve-la por completo. Melissa tocava as costas de sua companheira estirada sobre a cama e, acompanhando a respiração sentia também nela aquele fluxo de vitalidade. Sangue sendo produzido, o som de células nascendo e morrendo, o cheiro forte e atordoante dos hormônios da noite passada ainda impregnados no corpo. Era algo realmente lindo observar os detalhes de como aquela energia refletia em cada canto da cultista, poderia passar uma manhã inteira assim se não tivesse que ir trabalhar.

Toda tradição recebeu o título de uma esfera devido as suas afinidades gerais com ela. Isso não deixa de ser verdade também com os verbena, mais que os outros talvez, eles são extremamente ligados a seu entendimento íntimo sobre a vida. Muitos verbenas confiam em seu talento a tal ponto que ele se torna mais ou menos instintivo. Dependendo da ocasião os sentidos do mago podem ser afetados por mera ação da conexão que ele têm com o mundo. Esse sentido extra não está sempre presente mas revela muitas vezes pontos de vista ou sensações que de outra forma passariam desapercebidas. O cheiro de um hormônio forte, batimentos cardíacos numa sala silenciosa ou ligeiras intensificações em qualquer dos sentidos comuns são mais do que freqüentes. Porém a afinidade com o fluxo da vida também cria no mago um excesso de força que o leva muitas vezes a extremos. Acessos de raiva, amor ou emoções similarmente intensas tomam um novo patamar no coração do verbena. Os sentimentos de uma bruxa são como o tempo, se torna uma tempestade com a chegada de até algumas poucas nuvens. Verbenas muitas vezes têm que aprender a se controlar para poderem viver tranqüilamente, e lutas internas são freqüentes. Muito da mágika do verbena se revela nas percepções que ele adquire instintivamente.

A loja de Jane era pequena em comparação algumas das outras que existiam nos Shopping Centers locais, mas ao contrário delas o lugar guardava poder verdadeiro. Toda vez que entrava por aquela porta de vidro e ouvia a sineta tocar Melissa era tomada por uma sensação estranha de finalmente estar no lugar no qual realmente pertence. Ela nunca havia chegado atrasada ao trabalho desde que conseguiu a vaga. Era uma honra trabalhar para uma pessoa tão gentil quanto Jane além de ser, de uma forma idealística, um trabalho que trazia bem maior a toda a Humanidade. Linhas Míticas, era um trabalho difícil mantê-las de pé em tempos tão apáticos, apesar de não deliberar muito a respeito a maga guardava em seu coração a explicação que ganhou de Lucy sobre como era um trabalho dos verbena manter vivos mitos e fantasias do passado dando chance assim para os adormecidos reconhecerem o poder que existe além dos limites da ciência. Parecia bobo manter uma loja na qual a maioria dos que realmente compravam não passavam de new Ages ou adolescentes entediados, mas ao se lembrar que um dia ela mesma fora dessa forma a coisa ganhava um novo carinho por parte de Melissa. Graças a esse esforço muito do velho mundo ainda estava vivo. Tarot, poções e mesmo algumas lendas menores pareciam sobreviver na fantasia coletiva, poderia não parecer algo grande, mas era uma semente, uma que ela não deixaria de regar.

Apesar de se sentir um pouco inútil cuidando de uma registradora Mel sabia que era apenas um descanso para o trabalho comunitário na parte da noite. Ajudar os enfermos do Bairro era algo cansativo. Os cuidados constantes precisavam de atenção e, desde que começara a fazer a ronda com Jane, tinha ficado mais habilidosa em brincar com os limites da realidade no seu trabalho de cura. A esperança das pessoas e a fé de que talvez a coisa pudesse ser mais simples do que parecia eram armas úteis na hora de tratar os casos mais graves. Na antiguidade era função dos sacerdotes cuidar dos doentes e mais do que isso era uma honra poder carregar a função de ajudar a natureza a se reparar, mas atualmente os médicos pareciam não levar isso em conta. Naquele local então, onde os imigrantes clandestinos se proliferavam a ajuda era desesperadamente necessária. Era algo reconfortante sentir-se útil, principalmente em tempos tão violentos, se as pessoas acreditassem pelo menos...

Como tradição os verbenas normalmente desempenham papeis de curandeiros e assistentes sociais nos meios em que vivem. Desde que os homens foram criados esses magos pastorearam e cultivaram a vida de seus irmãos e, conforme os recursos se tornam mais escassos e todas as técnicas desumanamente caras o papel como pilar da comunidade têm muitas vezes recaído sobre os ombros desses magos, um fardo que é aceito de bom grado. Na luta contra a doença existe um grande inimigo porém, a mídia parece lançar mais e mais campanhas contra tratamentos naturais e as esperanças daqueles sem opção diminuem limitando a força que pode ser utilizada na arte da cura. Mais de um mago já sofreu as conseqüências de sacrificar infringir a realidade para salvar um paciente e essa é uma dura escolha a ser feita conforme mais e mais casos graves surgem com a violência urbana.

Numa outra frente a tradição mantém viva a fantasia medieval e os mitos dos povos antigos. Influenciando desde o movimento New Age até bandas de Metal Melódico, os verbenas procuram deixar sempre viva a chama das glórias passadas na mente das pessoas. É uma atividade comum para os magos dessa tradição se organizarem para criar lojas de ocultismo, feiras de época e escreverem livros pertinentes. Mais de um verbena também já encontrou a tradição por intermédio de cursos de magia e mesmo de covens virtuais. A tradição chama as lembranças das glórias passadas de Linhas míticas e delas surgem artes coincidentes diversas como a leitura de cartas e a quiromancia. A onda de "bruxas" dos últimos tempos anuncia vitórias diversas, mesmo que menores, conforme as artes da tradição são aceitas como fuga de um mundo a cada dia mais opressivo. É irônico as massas procurarem alienação na tradição que preza o viver a vida, ou talvez simplesmente seja a providência.....

local original: Page of Mirrors
nome original: Ser um Verbena
autor(es): Kaworu Naguisa
tradutor(es):

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