A Procura de kevin


Aviso: Mago: A Ascensão é um jogo. É um jogo sobre temas maduros e questões complexas. O material à seguir tem relação com este jogo. Como tal, ele não requer apenas imaginação, mas também bom senso. O bom senso diz que as palavras de um jogo imaginário não são reais. O bom senso diz que as pessoas não devem tentar realizar "feitiços mágicos" baseadas em uma criação totalmente derivada da imaginação de outra pessoa. O bom senso diz que você não deve tentar desvendar agentes do sobrenatural com inspiração em uma obra completamente fictícia. O bom senso diz que jogos são apenas para se divertir e quando eles acabam, é hora de colocá-los de lado.
Se você perceber que está distante do bom senso, desligue seu computador, afaste-se calmamente e procure ajuda profissional.
Para o restante de vocês, aproveitem as irrestritas possibilidades de sua imaginação.


Depois do meu despertar eu andei por vários lugares, visitei várias partes dos EUA. Seguindo sempre em frente, procurando um lugar que só tinha visto uma vez, mas que ficou gravado na minha memória de um modo tão claro como nada antes, ou como nada depois.

Passei pelos mais diversos ambientes, mesmo os mais adversos, onde nunca poderia existir um lugar como o que me foi mostrado. Mas eu acreditava na mágika do lugar, acreditava que seria um local que desafiasse a própria realidade, onde todo o impossível seria possível e onde eu me sentiria, finalmente, em casa. Casa, lar, esta é uma sensação que eu não havia realmente experimentado desde que nasci, a de estar em casa. Eu nunca havia encontrado meu lugar neste mundo, pelo menos por enquanto.

Mas, por algum capricho insondável do destino, eu voltei a Washington. E antes de entrar nos limites da cidade, eu a vi. A visão que me fez sair daqui e girar por quase todo o país, a colina gramada com o bosque ao fundo. Pedi que o senhor que me dava carona parasse, ele estranhou mas me deixou ali e seguiu em frente.

Maravilhado e com a visão alterada eu pude sentir os padrões, a vida e a essência que circulava entre eles. Mas algo estava errado. Fechei os olhos e, sobrepondo-se à paisagem, a minha visão surgiu. Mas a sobreposição não era perfeita, faltavam algumas árvores e arbustos ao redor da colina e o bosque à minha frente era menor do que na minha visão. Com meus sentidos alterados, vi também que este brilhava menos do que brilhava aquele da visão. Embora diferentes eu não podia negar a semelhança entre eles. E decidi ficar por aqui, isso devia ser algum tipo de sinal, alguma coisa me dizia isso.

Comecei a trabalhar como ajudante e vendedor numa loja de ferragens que, de repente, começou a receber dúzias de pessoas por dia. Meu plano era levantar um teto para mim no bosque, um lugar para onde fugir, onde minhas complicações não pudessem me pegar. Comecei a comprar o necessário e a trabalhar nisso. Mas não era tão fácil quanto eu via nos filmes, parecia que a casa nunca ficaria de pé.

Enquanto trabalhava percebia que estava sendo observado, alguma coisa me olhava do bosque e desaparecia quando eu procurava por ela. Era assustador, eu não perdi aqueles velhos calafrios com o meu despertar, pelo contrário, agora eles eram mais freqüentes e algumas vezes muito fortes.

Certo dia, já deitado e quase dormindo, exausto por ter passado todo o sábado tentando encaixar uma porta no lugar, eu vi uma mulher sentada na viga que atravessava o teto da frente até os fundos. Estranhamente isso não me deu calafrios, ao contrário, senti uma satisfação muito grande. Reconheci imediatamente a minha Guia, aquela que me orientou durante a loucura do meu despertar. A mulher de longos cabelos esvoaçantes que dessa vez estava sendo circundada por punhados de serragem, mas a serragem tinha uma cor diferente, linda como nenhuma outra cor que eu já tenha visto em qualquer madeira. Sorriu pra mim e desapareceu. Alguma coisa no meu íntimo me dizia que ela tinha aprovado minha escolha e apreciava meu esforço e, ainda, que eu voltaria a vê-la.

Enfim terminei o meu chalé, uma casa pequena, apenas para uma pessoa, mas que me fazia sentir num lar, eu sentia que tinha um lugar para onde correr e que ali eu estava em casa. Logo depois de dar a última pincelada na porta dos fundos, que dava para o bosque, eu me sentei no chão com as costas na parede e olhei para as árvores que formavam aquele lugar incomum.

E foi então que meu pressentimento se confirmou. De dentro do bosque veio em minha direção uma ninfa. Com seus cabelos sempre agitados pelo vento e uma nuvem de folhas, flores e terra rodopiando ao redor de seu corpo, essa estranha veste era composta também de pequenos pontos brilhantes, que com sua aproximação identifiquei como sendo gotas de orvalho. Veio até mim, atravessando uns bons 30 metros numa velocidade constante e lenta. Mas ela não caminhava, flutuava à uma distância de aproximadamente 5 centímetros do chão, e por onde passava surgiam pequenas flores brancas e roxas.

Ela me estendeu a mão e disse:

- Venha, você já estabeleceu seu lugar aqui, deixou sua marca nesta terra. Seu esforço, suor e sangue derramados para erguer esse pequeno templo foram suficientes para sacramentar seu compromisso com este pedaço da Mãe, agora você é seu guardião. Mas ainda há algo que você deve conhecer. Algo que você também deve proteger com sua própria vida, uma coisa que a Mãe deixou sobre a sua responsabilidade, à partir de agora.

Segurei sua mão com delicadeza, tive medo que aquela visão se desfizesse ao meu toque. Mas ela retribuiu com firmeza e me puxou atrás dela de volta para o bosque. Agora eu também flutuava, seguindo-a, e podia sentir a vida que se espalhava por todo lado. Sob os meus pés, na grama, sob a grama, nas minhocas que cavavam o solo e acima de mim, nos pássaros que voavam sobre a área.

Perto do bosque eu pude sentir as energias da Mãe que saíam de algum ponto dentro dele e se espalhava entre tudo ali. Fechando os olhos pude ver a coluna prata azulada de essência que subia, espalhava-se e caía, chovendo sobre o bosque, como o esguicho de uma fonte. E também o brilho multicor da vida que corria dentro das árvores e plantas junto com a seiva e também aquele que se agitava junto com os animais de todo tipo que habitavam o bosque. Agora todo o bosque tinha cores brilhantes e vivas como eu só tinha visto antes na minha experiência mais profunda, o Despertar.

Ainda de olhos fechados, mas com a percepção mais aguçada do que nunca, eu senti a sua mão me soltar e ela desaparecer. Abri os olhos e fiquei abismado. Uma parte do chão emitia um brilho que eu enxergava mesmo de olhos abertos e ainda podia ver aquilo que antes via apenas com os olhos fechados. Nada havia mudado no bosque ao abrir meus olhos, continuava a ver e sentir tudo ao meu redor. Logo atrás desse ponto de emanação de energia, havia uma árvore grossa e alta, com galhos que mais pareciam outros troncos se estendendo paralelos ao chão por vários metros e plantas menores crescendo sobre eles. Pude perceber quase no mesmo instante que a árvore estava ali há muitos anos, talvez séculos. Sentada num galho mais baixo, que mais tarde fiz de meu lugar de meditação, estava a minha guia. Ela me olhou impaciente e disse:

- Este é um local raro. Um local ainda imaculado e com habitantes respeitáveis, embora tão próximo da cidade. Mas o que o torna mais raro é o fato de que aqui, aí na sua frente mais especificamente, existe um ponto onde a Mãe lança sua essência para fora, para que seus filhos possam recolhê-la e se abastecer com sua energia primal. Esses pontos são raros e perseguidos, e muitos já caíram ou foram corrompidos por energias malignas. Você deve zelar por este Nodo, pelo menos até...

E dizendo isso minha mente foi inundada de novo pela visão do Bosque.

E quando a visão se foi eu estava sentado na soleira da porta dos fundos, de olhos fechados. Já era noite e me levantei pra entrar, mas algo me fez ir até o bosque. Ver se eu seria capaz de encontrar sozinho o caminho até o Nodo. Resolvi seguir as linhas de essência que saíam da minha frente até o bosque e lá desapareciam, só que agora eu as via com os olhos abertos. Na entrada do bosque eu hesitei, temeroso do que iria encontrar.

Mas abri bem os olhos, segui as árvores e cada marca do bosque, que de repente se tornaram velhas conhecidas minhas. Depois de alguns minutos dei de frente com a grande árvore e seus galhos espantosos, e na sua frente, entre suas raízes, havia uma poça de água. Na verdade uma fonte, uma nascente que formava um pequeno riacho mais adiante. Ali eu reconheci no mesmo instante o que eu estava procurando. Tinha achado minha conexão direta com a Mãe, o meu Nodo. Minha responsabilidade, meu direito, minha paz.

E enquanto olhava para o céu, num agradecimento íntimo pela minha sorte, eu vi um grande pássaro, um falcão, que voava em círculos sobre aquela pequena clareira no centro do bosque. E, num instante mágiko, vi uma pena da asa do falcão se desprender e cair. Caía rodopiando numa dança hipnótica que não permitia que eu desviasse os olhos de sua trajetória irregular até que pousou na pequena fonte aos pés da árvore.

Nesse instante, o falcão soltou um pio estridente, mergulhou sobre um pombo selvagem, capturando-o e desapareceu da minha vista entre as copas das árvores. Recolhi a pena, longa e com uma coloração marrom acizentada muito bela, e coloquei-a no bolso.

Era tarde e resolvi voltar, a casa ainda não tinha trancas e era ideal que eu estivesse dentro dela durante a noite. Ao chegar em casa e abrir a porta dos fundos, um daqueles calafrios me percorreu a espinha novamente, duas vezes. O que quer que fosse, estava bem perto dessa vez; olhei ao redor mas não vi nada. Resolvi entrar e tentar dormir.

Pela manhã, ao acordar, tive de novo aquele calafrio, percorreu-me duas vezes e com uma grande intensidade. Pulei da cama e senti um cheiro gostoso de café da manhã. Ovos, café, pão, leite e presunto. Estranhei e peguei minha adaga enquanto corria para a cozinha/sala. Lá chegando vi uma mulher jovem, com longos cabelos loiros cacheados e vestindo uma espécie de manto decorado com o bordado de uma grande árvore, a imagem tinha as raízes nos pés do manto e os galhos se espalhavam pelos braços. Ela estava pondo a comida na mesa e dirigiu-se a mim com uma voz suave:

- Você já tomou café?

local original: O mundo das trevas
nome original: A procura de Kevin
autor(es): Paulo Henrique Asfora L. Peres
tradutor(es):

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